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A Igreja e a modéstia no vestir

Fonte: Sacerdotes de Campos – RJ


I – A IGREJA E A MODÉSTIA NO VESTIR


1 – O MAGISTÉRIO SUPREMO E A VESTE

         Por que há sacerdotes que não permitem a senhoras e moças entrar na Igreja e receber os sacramentos com determinados trajes?

         RESPOSTA – Essas exigências não são dos sacerdotes, mas da própria Igreja. A Igreja Católica sempre foi severa, intransigente e vigilante em se tratando do pudor e da modéstia do vestir. Como prova disto existem inúmeras instruções da Santa Sé e de Bispos a respeito. Citemos apenas uma:

         Uma INSTRUÇÃO DA SANTA SÉ, de 12-02-1930, diz:

         “Muitas vezes, dada a oportunidade, o Sumo Pontífice (Pio IX) reprovou e condenou acerbamente a maneira insolente de se vestir que se vai introduzindo entre as senhoras e jovens católicas. Esse modo de vestir, não só ofende o decoro feminino e a modéstia, mas, o que é mais grave, vem em grave prejuízo dessas mesmas mulheres; e, o que é pior, leva miseravelmente tantos outros à condenação eterna.

         “Nada mais lógico e forçoso que os bispos – assim como convém a ministros de Cristo – como se fossem uma só voz, oponham  toda barreira a essa audácia e libertinagem da moda, suportando com serenidade e coragem as zombarias e insultos que receberem dos espíritos malévolos por essa tomada de posição…”

         “Os párocos e pregadores, nas ocasiões que se oferecem, conforme recomenda São Paulo, “insistam, expliquem, increpem, exortem” para que as mulheres usem vestes que irradiem o pudor e que sejam o ornamento e defesa da virtude, e admoestem aos Pais para que não deixem suas filhas usar vestes indecorosas.”

         “Os pais, conscientes da obrigação gravíssima que têm de cuidar, em primeiro lugar, da educação religiosa e moral dos filhos (…) fomentem, em seu espírito, por todos os meios, quer pela palavra, quer pelo exemplo, o amor da virtude da modéstia e da castidade…”

         “Os pais devem afastar as filhas dos exercícios de ginástica pública e de competições do mesmo gênero. Se forem forçadas a tais exercícios, cuidem que suas vestes, acima de tudo, ostentem a modéstia e a honestidade: nunca permitam que usem roupas indecentes.”

         “As diretoras de Colégio e professoras devem se esforçar para incutir no espírito de suas alunas o amor à modéstia, de modo a eficazmente induzi-las a se vestir de maneira decente…”

         “As diretoras e professoras não devem admitir no colégios e escolas alunas que usem roupas menos decentes – nem façam exceção para as próprias mães – e, se já admitidas, despeçam-nas, a não ser que se corrijam.”

         “As religiosas… em seus colégios, oratórios, salas de recreio, não admitam meninas que não observem a modéstia cristã no vestir. E na educação das alunas empreguem especial cuidado para fazer que o amor ao santo pudor e à modéstia cristã, deitem em seus espíritos profundas raízes.” (S. Concgr. Do Conc. 12-01-1930; A.A.S. V.XXII, pg. 26 e ss. – C.P.B. Appendix XX, pg.69).


2 – O CONCÍLIO PLENÁRIO BRASILEIRO

         Aqui no Brasil há alguma norma especial dos Bispos a respeito das vestes?

         RESPOSTA: O Concílio Plenário Brasileiro, fazendo eco à instruções e ordens vindas de Roma e ao Direito Canônico, estabeleceu as seguintes normas, de acordo com as quais, por mais de meio século, Bispos e Sacerdotes pautaram sua pastoral e dirigiram as consciências:

         “Os sacerdotes insistam com todas as forças para que as mulheres usem vestes que exprimam o pudor…” (nº 139, § 1)

         “Por esta razão, por ocasião da Festa da Imaculada Conceição da Ssma. Virgem Maria, depois de feita pregação a respeito, façam-se orações especiais tanto nas Igrejas paroquiais como nas catedrais. (…) (id §2).

         “Conforme o cânon 766, não sejam admitidas para o ofício de madrinha… as mulheres com roupas imodestas.” (CPB, nº 175, § 1)

         “As mulheres vistam em toda parte traje modesto, sobretudo, como ensina o Apóstolo, quando chegam a Igreja: e nesse caso, conforme manda o cânon 1262, § 2, se ousarem entrar na Igreja vestidas de roupas imodestas, sejam prudentemente afastadas e impedidas de participarem de quaisquer funções.” (S. Congr. Conc. 12-01-1930).

         “Os que vão receber a SS. Eucaristia estejam decentemente vestidos: as senhoras que não trouxeram a cabeça vestida e hábitos decentes, sejam, conforme intenção do cânones 855 e 1262, §2, excluídas.” (C.P.B. Decr. 223, § 2).

         Não saiu alguma nota da Santa Sé abolindo ou modificando a disciplina contida no cânon 1262 do Código de Direito Canônico?

         RESPOSTA: “Atéo presente não saiu nenhuma nota que tenha mudado a disciplina contida no Cânon 1.262 do C.D.C.”as. A. Bugnini, Sec. Da Congr. para o Culto Divino. Roma, 21-06-1969” (Sedoc V. 2f. 4,10/1969).


3 – A SAGRADA ESCRITURA, O PUDOR E A MODÉSTIA

         Essas normas não contradizem a obra de Deus que fez o homem despido, e declarou que tudo quanto Ele fez era bom?

         RESPOSTA: O corpo humano em si é bom, como toda criatura de Deus. A necessidade que tem o homem de não expô-lo, não procede do próprio corpo humano como Deus o criou, mas do desregramento dos instintos, conseqüência do pecado original.

         O hábito de cobrir de cobrir decentemente o corpo foi introduzido pelo próprio Deus, que fez, para nossos primeiros pais, túnicas de peles (Gen. III, 21) para substituir as reduzidas tangas de folhas de figueira que eles mesmos se haviam ajeitado. (Gen. III, 7).

         Advertir sobre a veste, não desperta malícia?

         RESPOSTA: “Em conseqüência, admoestar as pessoas que se trajam de maneira imodesta é despertar nelas, não a malícia, mas a virtude” (Carta Pastoral sobre os Probl. Apost. Moderno, R. 55-)

         Concluiu com razão Pio XII: “O pudor é a origem e a finalidade da veste.”

         João Paulo II disse numa das audiências das quartas-feiras, que com exceção de Adão e Eva, a Bíblia classificou a nudez humana de vergonhosa (…) a nudez está associada à vergonha ou, numa apreciação ainda mais forte, à ignomínia (J. Globo).


4 – CRITÉRIOS PARA SE DEFINIR UMA VESTE DECENTE. PELA ORIENTAÇÃO DA SANTA SÉ, PELOS PRINCÍPIOS DA MORAL

         Há um critério para se discernir entre veste modesta e veste imodesta?

         RESPOSTA: A moda não pode fornecer ocasião próxima de pecado (Pio XXII, Alc. 8/11/1957: Doc. Pontifícios, 126 – Vozes).

         Conforme orientação da Santa Sé (cfra. S. Congr. Religiosos – Circular 23/08/1928) e a própria natureza do assunto, não podem ser consideradas decentes e que protejam a virtude, as vestes que não cobrirem as partes provocantes e menos provocantes do corpo: não se pode ter como modesto o vestido sem mangas, decotado e que não desça abaixo dos joelhos, ajustado ou de tecido transparente.


5 – RIGIDEZ DESSAS NORMAS?

         Mas essas normas não são demasiado rígidas e exageradas para nossos dias? Não se deve admitir, nesse ponto, uma evolução?

         RESPOSTA: Uma simples reflexão mostra o sofisma que há nesta pergunta: a moda, tão exigente e tirânica, ninguém a tacha de rigorosa e exagerada. Quando imperava a “mini-saia”, havia sacerdotes que a combatiam e exigiam o vestido com apenas dois dedos abaixo dos joelhos. Eram tidos como rigoristas. Logo depois veio a moda “longuete”, que colocou a saia um palmo abaixo dos joelhos. Ninguém reclamou do “exagero” e a moda foi aceita com naturalidade. Em solenidades civis de maior porte, como, por exemplo, recepção de um governador, posse de um chefe de Estado, de um Ministro, etc., a etiqueta veda às senhoras e moças o uso do traje masculino. Igualmente em certos locais e ambientes, como em muitos tribunais de justiça, em dependências do Ministério da Justiça, e, até recentemente, no Congresso Nacional. Há até clubes noturnos de certa categoria onde é vedado às mulheres o uso deste traje.

         É o bom senso comum que dita essas normas, percebendo que o travestimento tem algo de menos digno, menos nobre e menos composto. Há algo inerente ao travestimento que o desabona.

         De um modo geral, todos aceitam naturalmente essas convenções como justas e normais. Mas não aceitam quando razões mais legítimas e mais sagradas o exigem. Lição dos fatos: a moda é sempre razoável, mesmo que imponha os piores exageros e extravagâncias. As regras da moral são sempre rígidas e exageradas, mesmo que exijam as coisas mais razoáveis. Por causa da lei de Deus, por um motivo sagrado, uma exigência normal é exagero e tirania. Por causa da moda, os maiores exageros são normais e aceitáveis. É porque desapareceu no mundo a submissão e o respeito a Deus.


6 – O EXEMPLO DOS SANTOS

         Qual outro argumento se poderia aduzir para mostrar que esse é o pensamento da IGREJA?

         RESPOSTA: É o exemplo dos santos. Entre inúmeros exemplos vamos citar apenas um: Um dos gestos mais admiráveis da hagiografia cristã, luz cujos reflexos de santidade e pureza iluminaram e hão de iluminar sempre o ambiente da Igreja e as almas católicas, é o que nos narram as atas autênticas do martírio de Santa Perpétua e outros mártires. Exposta na arena aos chifres de uma vaca bravia, ao primeiro impacto, ela é atirada ao ar e daí ao solo estraçalhada, e com a veste rasgada: “Sentou-se e vendo a roupa rasgada ao longo da perna, juntou-a prontamente, mais ocupada com o pudor do que com a dor”. (Vida dos Santos, Edit. das Américas, V. IV, pg. 240).


PARTE: QUE DIZER DO USO DO TRAJE MASCULINO PELA MULHER?

1 – O DEUTERONÔMIO E A INTERPRETAÇÃO DOS DOUTORES DA IGREJA

         Baseados em quê, há sacerdotes que impedem às senhoras, moças e meninas de calças compridas que entrem na Igreja, recebam os sacramentos e até negam a absolvição àquelas que não renunciam ao uso desse traje?

         RESPOSTA: Baseados na Sagrada Escritura. O livro do Deuteronômio, cap.XXII, 5, diz: “A MULHER NÃO SE VESTIRÁ DE HOMEM, NEM O HOMEM SE VESTIRÁ DE MULHER: AQUELE QUE O FIZER SERÁ ABOMINÁVEL DIANTE DO SENHOR, TEU DEUS”.

         Mas essa determinação do Deuteronômio não é ditada pelas circunstâncias do tempo, hoje inexistentes?

         RESPOSTA: Comentadores da S. Escritura de reputação mundial – entre outros Cornélio e Lápide, Fillion, Simon Prado – colocam esse preceito do Deuteronômio também entre as obrigações de lei natural, e o que é lei natural é válido para todos os tempos.

         Santo Ambrósio, considerado um dos maiores Padres da Igreja, nota que a diversidade e sexo é da própria natureza, de maneira que, mesmo entre as aves e bichos, vestiu Deus diversamente o macho e a fêmea. Eis o que afirma o Santo Doutor: “Não se conserva a castidade, quando não se guarda a distinção dos sexos”. (Ep. ad Irineum, apud Cornélio a Lápide).

         A Sagrada Escritura considera “abominável” tudo quanto na sociedade significa uma inversão da ordem estabelecida por Deus. Por exemplo, no mesmo livro do Deuteronômio, capítulo 12, 31, diz que as oferendas que os pagãos faziam dos próprios filhos aos ídolos são “abominações”. No Levítico, 18, 29, depois de condenar a formicação, o adultério, a sodomia, o incesto e a bestialidade, diz: “Todo aquele que fizer “abominações” tais perecerá do meio do povo”.” – Chamando de “abominável” a troca de veste está o Deuteronômio a indicar um procedimento que se opõe profundamente à disposição de Deus.

         Essa proibição não foi introduzida para se opor aos cultos idolátricos e, portanto, com um alcance apenas ocasional?

         RESPOSTA: a) Entre os comentadores recentes, Alberto Clámer, (que após a morte de Luis Pirot assumiu a direção da Bíblia, editada na França por Letouzey et Ané), lembra essa interpretação, mas nega que foi a existência de cultos idolátricos dos cananeus, a causa desta advertência do Deuteronômio; aliás, ele nega que nos cultos dos cananeus e fenícios tenha havido a abominação do travestimento.

         b) Embora estudo recentes mostrem que a determinação do Deuteronômio não foi motivada pelas abominações atribuídas aos cultos cananeus, não obstante, mesmo supondo essa interpretação, é fácil ver que o travestimento é em si abominável.

         Santo Ambrósio, no seu comentário mostra que o “abominável” fulminava não só na falsidade do culto – a idolatria – mas também a falsidade na natureza (veste contrária ao sexo). (Epist. Ad Irineum apud C. a Lápide).

         Aliás, a S. Escritura, nessa suposição, condena três coisas, umas ligadas às outras: o culto idolátrico, as perversões sexuais e a perversão no vestir: uma condenação não exclui as outras mas as envolve, já que uma perversão acarretava as outras. (Cfr. Su. Theol. I-llae.q. 102, a.6 ad 6).


2 – RAZÕES MAIS EXPLÍCITAS DE GRAVIDADE DESSE ABUSO

         Poderia explicar melhor por que é tão grave assim a eliminação das diferenças no vestir entre os sexos?

         Santo Tomás de Aquino diz que uma ação é moralmente boa ou má conforme o objeto que ela busca: se ele for bom, será boa; se for mau, será má. “Tornaram-se abomináveis como as cousas que amaram” diz a S. Escritura (Oséias, 9, 10).

         Uma pessoa faz um ato moralmente mau, na sua essência, se o objeto que tem em vista não lhe convém à natureza. (I-llae.q. 18, a..1,2,3).

         Ora, diz Santo Tomás, um traje é conveniente se corresponder à condição da pessoa que dele se serve. Entre essas condições está o sexo. Logo, o uso de uma roupa que é própria de outro sexo, é, em si mesmo pecaminoso, pois não convém a um sexo a indumentária de outro; não só por ser contrário ao costume, como principalmente por não conformar-se ou adequar-se às formas físicas e ao modo de ser do outro sexo.

         Daí, conclui ele, em si mesmo é pecaminoso uma mulher trajar vestes viris, e inversamente.

         Em primeiro lugar, a principal desordem está no anti-natural de uma veste masculina num corpo feminino. É uma aberração contra as diferenças de ordem natural estabelecidas por Deus;

         Em segundo lugar, vem o exibicionismo sensual, que leva à luxúria.

         Essas duas desordens escandalizam, porque quebram o senso das harmonias, das diferenças e do pudor. Há uma malícia em o homem querer algo contra a boa ordem natural.

         Pio XII dizia que o “homem pensa com a roupa que veste”. A S. Escritura, mais autorizadamente, diz: “O vestido do corpo dá a conhecer qual o homem é”. (Eccli. 19,27) A mentalidade, o espírito que essa moda – de usar traje de outro sexo – revela no mundo de hoje, é de uma inconformidade e até de revolta contra as diferenças impostas por Deus na ordem natural. E a ordem natural exige que as diferenças entre os sexos sejam manifestadas, de maneira digna e honesta, pelo modo diferente de vestir, adequado a cada sexo.

         Segundo Santo Tomás, a desigualdade e diferença entre os seres na criação, têm por fim manifestar as perfeições de Deus, para que o homem possa assim elevar-se das cousas visíveis às perfeições invisíveis de Deus (S.Paulo) – Ora, destruídas as diferenças e desigualdades naturais, destrói-se no mundo a semelhança com Deus, e um mundo onde as diferenças e desigualdades tivessem desaparecido, ou ficassem encobertas, seria um mundo onde o homem não poderia ter o senso das perfeições de Deus. Uma das características dominantes da mentalidade do mundo moderno, que o faz  anti-cristão, e , no fundo, ateu, é justamente a tendência para a padronização e o igualitarismo. A igualdade entre os sexos é uma das inúmeras manifestações desse espírito igualitário que leva ao panteísmo e ao ateísmo. Cfr. Carta Circular de 30/8/1981 – D. Antonio de Castro Mayer; Revolução e Contra-Revolução”. P.I. Cap. VII, 3-a).

         O mundo de hoje perdeu a noção de que todas as coisas devem ser ordenadas de acordo com a disposição de uma ordem imposta por Deus, para serem sinais e símbolos das coisas sobrenaturais.


3 – O ARGUMENTO DE SANTO TOMÁS DE AQUINO

         Santo Tomás de Aquino trata explicitamente a respeito desse ponto de moral?

         RESPOSTA: É o segundo argumento que nos leva a concluir pela iliceidade grave do uso de veste do sexo oposto: o texto de Santo Tomás na Suma Teológica, II-llae.q. 169 a.2, ad 3 diz: “o vestuário exterior deve corresponder à condição da pessoa, de conformidade com o uso comum. Por isso, em si mesmo, é pecaminoso uma mulher trazer trajes viris, ou inversamente; sobretudo porque pode ser essa uma causa de lascívia, o que a lei antiga especialmente proibia, porque os gentios usavam destes travestimentos pela superstição da idolatria. Pode-se, porém, proceder desse modo e sem pecado, se o exigir a necessidade: quer para ocultar-se dos inimigos, quer por falta de outras roupagens, quer por outro motivo semelhante”.

         Santo Tomás recorda os princípios da moralidade da veste, que por sua vez se baseiam nos princípios da moralidade em geral: o que convém à natureza de um ser é bom… O traje viril não convém à natureza da mulher. Logo, em si mesmo, pela própria natureza das coisas, é imoral. E é gravemente imoral porque Santo Tomás diz simplesmente que é em si mesmo pecaminoso: se entende, pecado grave. E porque somente em necessidade extrema se permite seu uso: para salvar a vida ou a liberdade ou por falta de outras roupas, ou outro motivo semelhante.


4 – ARGUMENTO: OCASIÃO PRÓXIMA DE PECADO CONTRA A CASTIDADE

         Haveria outras provas de que o uso de traje masculino pela mulher nas circunstâncias atuais seria pecado grave?

         RESPOSTA: Santo Tomás, na citação acima, se refere de modo especial ao “perigo de lascívia” no uso do traje de sexo oposto. De fato, nas circunstâncias concretas de hoje, o uso do traje masculino pela mulher fere gravemente as exigências do pudor e da castidade.

         O teólogo Vermeersh dá como “vestes proibidas”, pecaminosas, entre outras, aquelas “que se apegam de tal maneira ao corpo que, ou exibem toda a forma do corpo ou acentuam as características sexuais…(teol. Moralis-Princípia-Consiliae-Responsa. De Ornatu muliebri, nº 126, cfra.Zalba: Theol. Moralis V. II, 236 1-b; Dicionário de Theol. Moralis – Verbete: “vestido”).

         Ora, quem observa o traje masculino usado pelas mulheres hoje, percebe a clara preocupação e a tendência para o exibicionismo provocante. Aliás, não seria essa a razão por que tal moda se propagou tanto?


5 – CONCLUSÃO

         Como a sociedade teria um ambiente recatado e virtuoso se fossem postas em prática as normas da modéstia ensinadas pela Santa Igreja! No entanto, elas fazem parte da finalidade específica da Igreja.

         Com efeito, ensina o 2º Concílio do Vaticano, de acordo com a Fé de sempre, que todos os homens foram chamados à santidade. Se, porém, a Igreja se contentar em exigir apenas o mínimo que evite o pecado mortal pessoal, dada a repercussão social de nossos atos, estaria conduzindo a sociedade para um estado habitual de tibieza e a tibieza – é a sentença comum dos autores ascetas – é o ambiente mais hostil ao florescimento da santidade, que é o objetivo da Igreja.

         Compreende-se que uma nova Igreja, com base psicológica e sociológica, esvaziada de elementos religiosos, como dizia Paulo VI, propugne tal liberdade nos trajes. O doloroso é pretender inculcar semelhante liberdade como elemento constitutivo da renovação instaurada pelo conc. Vaticano II.




PARTE: OBJEÇÕES


1 – DOS MORALISTAS CLÁSSICOS

         Muitos moralistas clássicos afirmam que o uso do traje masculino pela mulher é apenas pecado venial e uma razão leve justifica seu uso.

         RESPOSTA: Pode-se afirmar, com toda certeza, que esses moralistas

não trataram “ex-professo” da questão, mas a ventilaram muito superficialmente, de passagem. A razão é que o problema não se punha para eles da maneira generalizada e grave como nos nossos dias. Eles não se deram ao trabalho de estudar profundamente a questão recorrendo às fontes teológicas mais autorizadas para tirar conclusões e luzes para analisar em todo o alcance a gravidade e o significado da corrupção indumentária como se apresenta hoje. Poucos discutem o texto do Deuteronômio, referem-se ao comentário de Santo Ambrósio e citam Santo Tomás. Apenas, em letras miúdas, repetem-se nas notas com que dão a avaliação moral, sem argumentar.

         Ora, há uma regra que diz que as afirmações e sentenças que tratam “ex-professo” e de maneira mais desenvolvida, devem prevalecer sobre as afirmações ligeiras e ditas de passagem. Logo, prevalecem sobre todas essas pequenas notas dos moralistas o que dizem Santo Ambrósio, Santo Tomás e os princípios da moral aplicados ao caso presente.

         Compreende-se perfeitamente isso, porque a explicitação de muitos pontos da moral, a aplicação dos princípios à prática, depende das situações de transgressão à lei de Deus.

         Um exemplo: esses mesmos moralistas, quando se referem à honestidade das vestes, começam em geral apelando para critérios secundários: costumes, intenção, etc. Ora o critério básico seria aquele da classificação do corpo em partes gravemente provocantes, menos provocantes, não provocantes: a veste que não cobre as partes gravemente provocantes, etc. seriam imodestas. Ora, eles não conheciam esses critérios? Conheciam, e até citam em outras circunstâncias, mas, como no tempo deles, as vestes não feriam os princípios básicos da decência, então não lhes ocorria fazer tal aplicação, que hoje é indispensável.


2 – O USO DESSE TRAJE NÃO IMPRESSIONA MAIS POR CAUSA DO HÁBITO

         As pessoas hoje estão habituadas com essas vestes e por isso já não se impressionam mais com elas, não despertando nenhuma tentação.

         RESPOSTA: Admitindo, em muitos casos, que essas vestes já não sejam mais uma tentação, e tenham perdido se poder de sedução, isto não acontece porque os homens estejam curados da luxúria, mas ao contrário, é porque a desordem dos instintos nelas encontra alimento. Pois, quando não contidos pela ascese e pela graça, tendem a se fixar na desordem, a que foram lançados pelo pecado original. É inegável que estes trajes, em muitos casos, despertam nos instintos desejos de perversões maiores.


3 – É UM TRAJE MAIS DECENTE PARA O TRABALHO

         É preferível em muitas circunstâncias que a mulher use calças compridas, à saia, sobretudo em certos trabalhos: é mais decente e recatado.

         RESPOSTA: A tendência moderna para igualar a mulher ao homem vai fazendo desaparecer o modo de ser diverso entre um e outro, a distinção da funções e trabalhos para cada sexo, de acordo com sua natureza.

         Por esta razão, a mulher não deve assumir funções que não pode exercer com traje feminino, pois não seria função própria para ela.

         Se uma donzela cristã está na grave necessidade de se manter num trabalho que lhe imponha a veste masculina, deve tomar medidas que atendam às três condições que, segundo St.º Tomás e os teólogos, são exigidas nesta situação:

         a) Que a intenção seja boa.

         b) Não haja perigo de sensualidade.

         c) Não haja escândalo.

         INTENÇÃO BOA: Ter uma finalidade honesta e justa: No caso mencionado, sustentar a família por si mesma.

         PERIGO DE SENSUALIDADE: Evitar os inconvenientes do traje masculino na ostentação das formas do corpo, sobrepondo a esse traje uma outra peça (um jaleco, por exemplo).

         PERIGO DE ESCÂNDALO: Procurar atenuar ao máximo a aparência masculinizante da veste, e, restringir seu uso ao mínimo necessário para evitar: a) que esse uso excepcional dê motivo a enfraquecer as convicções e a resistência das pessoas que rejeitam o travestimento; b) que não seja fator de estímulo na propagação do uso do traje masculino pela mulher.


4 – O EXEMPLO DE SANTA JOANA D́ARC

         Santa Joana D́Arc não usava traje masculino e mandado do próprio Deus?

         RESPOSTA: É verdade, porque, excepcionalmente, por vontade de Deus, ela teve que exercer uma função que era própria do homem. Deus pode suspender certas leis morais de ordem secundária. Além disso, para impedir que sua função e sua veste fosse causa de qualquer risco de sensualidade entre os homens, Deus a dotou de uma pureza e modéstia tais que superava qualquer inconveniente de ordem natural: Os comandantes do exército francês, companheiros de armas da santa guerreira, depunham no processo de revisão de sua condenação: diante de Santa Joana D́Arc jamais eles sentiam qualquer tentação carnal, mesmo nas condições precárias de uma acampamento militar, tal era a irradiação milagrosa de pureza que dela se desprendia. (“JEANNE D́ARC”. E. Bourassin, 1977, pgs.55 e 125).

         Se uma jovem for chamada para a revelação divina à mesma missão que Santa Joana D́Arc terá também a graça correspondente.


5 – QUESTÃO SECUNDÁRIA E COMEZINHA

         A Igreja, em nossos dias, está empenhada em problemas mais fundamentais para o homem e para a Fé. Por que tanta preocupação com coisas tão comezinhas, como vestes, modas, etc.? Passou a época de ocupar-se com coisas tão secundárias e sem importância. A visão da Igreja hoje é outra, não se detém mais em exterioridades e casuísmos.

         RESPOSTA: A questão da modéstia no vestir não é fundamental no sentido lógico: na ordem lógica, dos princípios, de fato, ela não vem em primeiro lugar. Mas não se pode dizer que não é fundamental no sentido que não tem nenhuma importância. Assim não se pode dizer que, numa casa, o importante é só o alicerce, porque o alicerce é o fundamental da casa, e daí concluir que as paredes e o telhado não têm importância.

         A Sagrada Escritura prova que não é uma questão desprezível quando pela boca de S. Paulo diz: “Quero que as mulheres se apresentem em trajes honestos, decentes e modestos (…) ataviando-se com recato e modéstia” (I Tim. 2,9).

         Os documentos da Igreja acima citados também provam que a Igreja sempre deu muita importância às questões ligadas ao recato no vestir.

         Pe. Bernardes, em “LUZ E CALOR” observa: “As várias disposições e acidentes que tocam o corpo, afetam a seu modo também o espírito… Se o teu vestido for pobre e roto, repara que o teu espírito recebe daqui alguma disposição diferente da que tem quando o vestido é novo e asseado: e assim nas demais coisas”. (Parte I, Doutrina IX). Em outras palavras, tudo quanto toca ao homem é importante ao homem no que tem de mais elevado em si.

         Se a questão das vestes é tão sem importância e secundária, por que não ceder em algo tão sem importância para obter algo tão importante, como seja participar dos atos religiosos e dos sacramentos? Se é secundário, por que não ceder no secundário ao sacerdote, seguindo uma tradição milenar que a considera importante?


6 – CRITÉRIOS PARA JULGAMENTO

         Os critérios para julgar uma veste indecente são relativos, variam de acordo com os tempos, os costumes e os lugares. Antigamente, por exemplo, usar um vestido pouco acima dos tornozelos, era escandaloso.

         RESPOSTA: A moral não é relativa, ela tem seus princípios objetivos. Portanto há um critério objetivo para se avaliar da moralidade da veste (veja parte I, nº4).

         Se, de fato, há uma certa relatividade no que diz respeito à veste, essa relatividade existe nos aspectos acidentalmente agravantes ou atenuantes, não naquilo que é fundamental.

         Se antigamente se exigia que as vestes das senhoras fossem até os pés, não era porque a moral exigisse isso como o mínimo absoluto, mas porque os costumes mais recatados assim o impunham. E os pregadores e moralistas percebiam nas novas modas mais curtas a tendência de um incipiente  nudismo. Exigiam mais do que o mínimo para impedir que as vestes chegassem ao menos que o mínimo exigido pela moral.

         O que se pode admitir é que as normas e critérios que definem a moralidade da veste eram antigamente menos explícitos em seus pormenores e que, com as novas situações de transgressões da modéstia pela moda, é que foram se definindo mais explicitamente. Não que evoluíram num sentido de estabelecer critérios contrários.

              

 

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