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“Comum” ou “normal”? Um abismo de diferença

Por Julie Maria




Hoje vi uma entrevista com a escritora do momento. Escritora fazendo sucesso no Brasil já me chamou atenção. Mais ainda: adolescentes estão lendo! Como a autora diz “ler é bacana” e eles estão de acordo. Não posso deixar de ver o lado positivo disso: tirar um adolescente da TV e da Internet para ler é algo que merece todo o nosso incentivo. Mas… estão lendo o quê?

A escritora escreve para adolescentes e como ela disse na entrevista, tudo o que está nos livros sai “da adolescente que ela tem dentro”. A garotada está encantada porque ela se tornou uma amiga, uma amiga que “entende e pactua” com tudo o que acontece. Mas o importante é que ela os entende, isto é, entende as gírias próprias desta moçada. Qual o problema em tudo isso? Se toma o “comum” como “normal” e um livro que poderia educar (divertindo), só reafirma o que vê, sem intenção nenhuma de elevar nem melhorar. Qual o “comum”? Meninas de 12 anos que escrevem para a escritora dizendo que estão com medo pois “não sabem contar para a mãe que beijou”. Isso é normal? Seria exigir muito para uma menina com 12 anos ser criança? Será que não estamos apoiando o salto das etapas normais de desenvolvimento e o “comum” vira “normal” à força dos números? Sim, muitas meninas, muitas mesmo, com 12 já estão beijando.


E para aqueles que se preocupam de fato com isso, isto é, não acha isso normal, a pergunta é: o que os pais (primeiros educadores) estão fazendo? Se depender do governo, estão aprendendo a se masturbar na primeira série; se depender da Globo estão vendo na prostituição uma bela vocação – a malhação é a maior sala de “aula” do Brasil à tarde para os adolescentes; e noite, as novelas para adultos (ou pior, para a família reunida). E o que vemos lá? Uma das cenas me fez parar numa loja para confirma isso: uma criança, literalmente uma criança (máximo 10 anos) dizendo, com cara de “apaixonado” que “só pensa na Rafinha”, quando o ator que está conversando com ele lhe diz: “você agora é o craque do futebol… todas as meninas estão a fim de você” (pasmem). E se depender dos hits do momento, nossas crianças estão balançando o bumbum no rosto da pessoa, em vez de cumprimentar. Bebês que estão aprendendo a andar, já fazem movimentos eróticos estimulados pelas pornográficas danas da moda.


Respondamos seriamente: o que será amanhã de uma menina que aos 2 está rebolando, aos 5 se veste como “mulher”, aos 12 anos está beijando e sendo constantemente treinada com estes exemplos? Uma escritora tem nas mãos a chance de guiar estas meninas a reconhecerem sua dignidade, sua beleza, sua unicidade, sua feminilidade, sua vocação e especialmente, não fingir que está tudo bem que uma menina de 12 anos esteja beijando. Lógico, isso implicaria ter um ideal, uma meta que vai além de sobreviver. Teria que ter a meta que dá sentido a qualquer escritor digno deste nome: elevar o ser humano, mostrar toda a sua nobreza, dar-lhe a formação que amanhã os farão adultos maduros e não “levados pelo prurido de novidades”. Isso implica heroísmo, virilidade, magnanimidade, sentido sobrenatural da vida… sim, estas não são virtudes comuns, mas são normais.


Não precisamos ser expertos para vislumbrar que o “comum” de uma menina como esta é que aos 14 terá a primeira relação sexual, aos 15 será mãe solteira ou terá abortado, e aos 18 – plena juventude – já está ferida por tantos relacionamentos frustrados. Estou exagerando? Estou sendo dramática? Estou no século passado?


Creio que conhecemos pelo menos uma menina que se encaixa neste quadro descrito acima. E os números de adolescentes grávidas não param de crescer. Antes as estáticas começavam com a idade de 14 anos, agora passaram para 11! E elas não sofrem? E elas não prefeririam – ou preferirão – que tivesse sido diferente? E elas não gostariam que alguém tivesse amado elas de verdade e mostrado um outro caminho? Tenho experiência na minha própria família disso. Não estou falando em abstrato, estou falando de alguém com nome e sobrenome. Mas se você que está lendo este artigo acreditar ser possível construirmos uma nova mentalidade, coloquem sua boca no trombone, faça barulho, saia de sua toca, e faça história de verdade. Vamos mostrar que tem pessoas, convictas, que não igualam o “comum” com o “normal”. (Lembremos que os apóstolos eram apenas Doze).


Como disse a apresentadora que entrevistou a escritora, “agora a família tradicional já não existe mais, então esta menina de 13 anos tem que aprender a ajudar a mãe, que está divorciada – que é sempre traumático – a superar estas coisas”. Tem lógica, né?! Se a menina com 12 anos beija, então com 13 já é adulta o suficiente para ajudar a mãe como uma boa psicóloga! E a escritora arremata com uma frase mais ou menos assim: “sim, eu digo isso no meu livro, às vezes você tem que deixar os seus 13 anos de lado e ajudar a sua mãe, dar colo para ela”.


Eu tive esta experiência. Com 15 anos vi minha mãe sofrendo com a separação. Por isso sei que esta situação não faz bem nem para a adolescente nem para a mãe. Adolescente como o nome indica está aprendendo, amadurecendo, ainda não é adulta. A criança não está preparada para fazer o papel de mãe, isto é, a que dá a vida e educa; muito menos orientar os dramas da sua própria mãe.


É isso que eu advirto nesta postura que quer fazer algo mal em si mesmo – saltos de etapas – ter cara de manero, como se as consequências disso não fossem terríveis para esta menina de 13 anos.


Qual a solução? Educar, educar, educar para o amor autêntico. Para compactuar com os adolescentes já tem muita gente. Eles precisam de quem mostre para eles o caminho que os faça de fato, felizes. Para isso é preciso ter coragem e convicção: coragem para ir contra a corrente e convicção a ponto de ser capaz de dar a vida por aquilo que se crê. Sim, a menina de 12 anos já é capaz de esperar, já é capaz de se auto-dominar, já é capaz de mostrar que tem valores, se alguém a ensine isso. Mas não é capaz de dar colo pra própria mãe. Isso não é coisa de escritora séria.

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