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O dom da virgindade


Por Julie Maria




O tema deste artigo é a virgindade. Gostaria de dividi-lo em três partes:.


1- O Plano divino e a virgindade


2- Como viver o plano de Deus


3- Como recomeçar


1. O Plano divino e a virgindade


Como sempre, quando falamos sobre o plano de Deus temos que reconhecer que estamos frente a um tema que supera tudo: que Deus tenha um plano para cada um de nós é algo que fazia a Santa Teresa de Ávila entrar em êxtase!. E isso mostra como às vezes, e até mesmo sem querer, tomamos os dons divinos como algo “por merecido”, algo que perde o seu valor -não em si mesmo-, mas porque nós não somos capazes de abraçar a verdade sobre este plano. Alguém já te disse que Deus não cria nada “à toa” e que o ser humano, criado à sua imagem é o que existe de mais precioso na terra? Que Ele te planejou e que Ele sabe muito bem onde irás ser feliz e realizado? que Ele tem uma vocação e que você irá descobrindo ao caminhar, ao escutar a Sua voz que fala na oração, que fala na Liturgia, que fala pelo diretor espiritual e que fala pelos acontecimentos? Parece que isso não tem nada a ver com o tema deste artigo… mas foi isso que eu descobri ao começar um estudo sobre a virgindade:  nós temos uma visão muito, mas muito reduzida mesmo, sobre a virgindade e é isso que não nos permite abraçar a verdade da virgindade tal como Deus a planejou.



Se eu não der o valor que Deus dá para a minha vida, para minha pessoa, para minha historia e para a vocação para a qual Ele me chama, então realmente a minha virgindade “não tem valor”, pode se transformar num “tabú” como muitos dizem ou num peso, como muitos sentem. A virgindade é algo tão íntimo, tão sagrado, tão misterioso que é preciso entrar no mistério do plano de Deus para – pelo menos tentar – olhar com os Seus olhos e descobrir sua grandeza.



O primeiro fato é incontestável: Deus nos cria, homem e mulher, virgens. Deus nos cria “intocáveis”, nos cria de forma única a cada um de nós. Isso nos tem que dizer algo: a virgindade é um bem, é um valor a ser apreciado, é uma realidade a ser preservada, pois Deus quis que nascêssemos assim. E digo isso pensando na virgindade física e também espiritual, isto é, virgindade da alma. E virgindade para o homem e para a mulher. Porque a virgindade significa tanto, mesmo para aqueles que da boca para fora a ridicularizam? Porque



“A virgindade física é uma expressão externa deste fato de a pessoa pertencer só a si mesma e ao Criador.”[1]



Com a realidade do pecado original, reconhecer a integridade que Deus desenhou para nós no seu plano original não é fácil nem automático. Não podemos experimentar novamente a união íntima e harmoniosa que havia em nós, mas podemos ter uma idéia como era, e isso é possível quando aceitamos o dom da virgindade como algo belo, como algo que reflete aquela integridade da pessoa, corpo e alma, querida por Deus. A virgindade não pode se resumir num dado fisiológico, pois corpo e alma ainda estão unidos de forma substancial. Por isso, a integridade da pessoa é perdida quando, apesar de existir a virgindade física, a pessoa deixou de ser pura pelo atos cometidos.



No plano divino, a virgindade física deve revelar a virgindade espiritual e vice versa. Este é o plano. Quando falamos que Nossa Senhora é Virgem, Ela é virgem nos dois sentidos e de maneira plena, pois não provou a ruptura entre corpo-alma que nós provamos pelo pecado original, e jamais “conheceu” nenhum homem, para usar o termo que a Sagrada Escritura usa para designar a relação conjugal.



Quando então, no plano de Deus, pode uma pessoa entregasse seu ser – e com ele sua virgindade física e espiritual – para outra pessoa? Depende da vocação que Deus lhe deu.



Se a pessoa tem vocação de celibatário, a pessoa irá consagrar a sua virgindade a Deus por meio do voto da castidade:



“Esta entrega exclusiva e total Deus é fruto de um processo espiritual, que ocorre no interior da pessoa sob a influência da Graça. Ela constitui a essência da pureza… De fato, a pessoa que escolhe a total e exclusiva entrega a Deus, vincula à pureza, que decide guardar. A pureza da pessoa significa que ela é senhora de si mesma e que não pertence a Deus exceto a Deus-Criador. A virgindade acentua ainda mais esta pertença a Deus. Aquilo que era um estado na natureza tornar-se objeto da vontade, de uma escolha e decisão conscientemente realizada[2]



Se a pessoa tem vocação ao matrimônio, ela irá entregar o seu ser – de forma única, exclusiva, total – ao seu esposo (a) no dia das Núpcias.



“O matrimônio é baseado no mútuo amor esponsal; sem ele a recíproca entrega física não teria o pleno apoio das pessoas… O matrimônio deveria ser fruto do “primeiro amor”, isto é, da primeira escolha.”



Sabemos que isso às vezes não acontece: não sempre se casa com o “primeiro amor “e justamente por isso o namoro deve ser 100% puro, casto, transparente, e sem intimidades! Longe disso ser um ato autoritário ou arbitrário de Deus, isso serve para preservar aquilo que todo amante deseja e o que o homem e a mulher tem direito: ser único, exclusivo e total para o amado! Isso não é uma imposição.. isso é a lógica intrínseca de quem ama e quer ser amado!



O amor humano exige por si mesmo esta unicidade, esta exclusividade, esta totalidade. Não se ama alguém pela metade, se ama a pessoa inteira, corpo e alma e também sua fertilidade… por isso no plano de Deus a entrega da virgindade nas núpcias (que é sentida como entrega pela mulher e como posse pelo homem) é algo que os une de forma totalmente diferente de qualquer casal na face da terra, e é justamente por isso que a união de uma só carne, ou seja, a relação conjugal tem um valor tão especial no plano de Deus: a relação sexual entre um esposo e uma esposa – no plano de Deus – está chamada a refletir o amor trinitário, com todas as suas características, que podem ser resumidas em ser um amor “livre, total, fiel e fecundo”.



Ambas vocações, o celibato pelo Reino e o matrimônio são maneiras de viver a vocação que todo ser humano recebe e que lhe é inato: a vocação ao amor.



2. Como viver o plano de Deus



É preciso se ocupar em descobrir, antes de mais nada, a vocação que Deus nos deu. É preciso que os pais eduquem a seus filhos de forma tal que eles, desde a mais terna infância, possam se reconhecer como filhos amados do Pai, que os chama para uma vocação específica nesta vida. É preciso que os pais os ensinem a rezar e a escutar a voz do Pai em relação à vocação dos filhos. Este é o primeiro passo. Este texto da Santa Gianna é um testemunho sobre isso. Logo, e simultaneamente, os pais devem educar os filhos na lei de Deus e isso implica viver na “escola do amor”, na escola das virtudes. Digo tudo isso, pois quando os pais fazem isso, facilitam – e muito – o delicado momento de discernimento vocacional dos seus filhos.



Caso a pessoa tenha dúvida, e for namorar, deverá saber que namorar não é vocação, e sim um estado temporário para discernir se aquela pessoa é o esposo-esposa que Deus quer para ela. Daí que, com isso em mente, o namoro se torna um processo de conhecimento profundo da pessoa humana, de seus valores, de seus critérios, etc. e saberá sempre que “pode acabar” caso não seja a pessoa certa. Se namorar com 12 anos é realmente absurdo, igualmente nocivo são as pessoas que retardam um relacionamento sério, como preparação para o matrimônio, por serem imaturos e ter medo das exigências e responsabilidades que supõe uma vocação.  De qualquer forma, o namoro deverá ser o mais casto possível, para que possa ser vivido de forma saudável e tenha o desapego necessário para tomar a decisão correta, segundo a vontade de Deus. Se isso parece utopia para nós hoje, é porque estamos tratando nossos filhos e educando-os como incapazes de aprender o autodomínio, estamos destruindo a sua força de vontade e o vigor próprio da juventude. Muito certa é esta frase:



“A castidade, que é a virtude mais fácil e mais suave de se manter quando possuída inteira, é a mais difícil, mais insuportável de observar quando possuída a meias”.[3]



Se pensamos ser muito difícil para nossos filhos se manterem castos e puros é porque não lhe ensinamos e não vivemos como esposos a beleza radiante da pureza e da castidade! As inúmeras angústias dos casais de namorados que perderam a pureza são testemunhos de como gostariam de poder “voltar atrás” e viver um namoro casto!



O plano de Deus não é impossível e nem uma utopia, se contamos com a Sua graça, sacramentos, direção espiritual (tudo o que a Igreja nos oferece para ser o que Deus deseja de nós!) e se fizermos o que está ao nosso alcance para que isso se torne realidade.



3. Como recomeçar



Não sou mais virgem; não sou mais pura; o que fazer? Para que casar ainda na Igreja?



Esta é uma dúvida que angustia muitos corações de jovens, meninos e meninas, no dia de hoje. Não estão felizes nem satisfeitos. Sentem que foram criados para algo maior, grande, nobre, e que estão desperdiçando suas energias… e querem voltar atrás. Mas isso não é possível. O que sim é possível é recomeçar. Os santos também são exemplos disso: se Santo Agostinho não pensasse que isso seria possível, talvez não tivéssemos entre nós um dos maiores gênios da humanidade. E esta dor pode se tornar um bem, pelo mistério do plano de Deus, quando estes jovens se tornarem pais: eles vivendo a castidade conjugal e ensinando seus filhos irão preservar eles desta grande dor.



Muitos casais namoram como “se estivessem casados”, e outros casam e continuam vivendo como se estivesse dando espaço para a luxúria. Nenhum dos dois está vivendo o plano de Deus e ambos estão chamados a recomeçar:



De maneira concreta, o primeiro passo para recomeçar é aprender a namorar de maneira casta, pura, sem carícias e intimidades que levam a querer “avançar” para um ato que está perfeitamente criado e desejado por Deus para os esposos (estes já deram o seu “Sim” para viver um amor total, exclusivo, fiel e fecundo!).



E não existe meio termo: o meio termo na castidade não dá certo. Devem ser fortes para cortar pela raiz os carinhos, carícias, intimidades, etc. reservados para os esposos. Parece exagero dizer que os namorados deveriam apenas se permitir andar de mãos dadas, nada de beijos ou abraços. No entanto, os casais que reconhecem que os beijos e os abraços, no inicio timidamente, mas depois como um fogo, foi o que os levaram a perder a pureza no namoro, são os primeiros a estar de acordo com esta necessidade! Sim, o namoro de um casal cristão não tem nada a ver com o namoro pagão, ou com aquele que se mostra na mídia. É um sinal de contradição para o mundo e dão provas de que amar como Cristo ama não é impossível!



Quem conhece os casais que vivem esta pureza, sabem que sua alegria e paz irradiam deste relacionamento para todos os que estão perto, e provam que estão felizes fazendo a vontade de Deus, além de estarem se preparando para a castidade conjugal que requer autodomínio e sacrifício. Os namoros que o mundo proclama carregam uma grande tristeza nos olhos, pois no fundo, todos gostariam de estar vivendo um relacionamento leve, saudável e transparente!



A dor que ainda fica no coração quando se perde a virgindade, devemos entregar no Coração Misericordioso de Jesus, para que Ele venha nos ajudar a redescobrir o valor que nós temos para Ele, valor que nunca se perde. Ele nos ama sempre, e só quer o nosso bem.



Aceitar a segunda, terceira chance é sinal de confiança nAquele que faz “novas todas as coisas”, e faz novas de uma maneira que supera nosso entendimento. Lembremo-nos daquela passagem tão impactante do encontro do Esposo, Nosso Senhor, com a figura perfeita da Igreja, a Virgem Maria no calvário. No filme, quando os olhares se cruzam, o Esposo diz “eis que faço novas todas as coisas”, e o faz por meio do seu Sacrifício. E porque acreditamos no Seu Sacrifício, que nos deu a Redenção, nós sempre vamos dizer que vale a pena voltar a ser puros, castos, a namorar de forma digna para os filhos de Deus, a casar na Igreja, e ser assim o esposo e a esposa que Deus planejou, pois sem a graça dEle, nada somos e nada podemos!





[1] Karol Wojtyla, Amor e Responsabilidade, pg. 223

[2] Karol Wojtyla, Amor e Responsabilidade, pg. 224



[3] Plínio Salgado


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