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O hábito não faz o monge?

Por Padre Jonas dos Santos Lisboa


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Vamos fazer um paralelo entre o hábito religioso e a modéstia no trajar. É tão importante o hábito para o religioso, quanto o traje decente para o cristão. O velho adágio que diz que o hábito não faz o monge tem que ser entendido com uma pitada de sal. De fato, só o hábito não faz o religioso, como só uma veste decente não faz a modéstia de uma pessoa. O que vale  antes de tudo é o coração da pessoa. Nós, porém,  não vemos o coração, vemos apenas as aparências.


Não podemos julgar a ninguém pelas aparências, mas estas tem sim muita importância[1], até mesmo para a sociedade mundana, que não permite, por exemplo, que alguém se apresente num determinado evento sem o traje a rigor. Em várias repartições públicas, vemos avisos proibindo que as pessoas se apresentem de short, bermuda, sem camisa, etc.  Ninguém ousa ir a um baile de sociedade, de camiseta regata ou de chinelo. Quando o Papa vai a algum lugar, exige-se dos clérigos que se apresentem com sua vestimenta própria. Mas seria apenas nesta ocasião que os religiosos deveriam se apresentar devidamente caracterizados? O Código de Direito Canônico determina: “os clérigos usem hábito eclesiástico…” (Cânon 284).  O mesmo Código reza  no Cân. 669: “Os religiosos usem o hábito do instituto…”. Isso significa que a roupa tem a sua importância.


Sister Maria Teresa, O.P

O hábito não faz o monge, mas identifica-o.  Como  vamos distinguir no meio da multidão um sacerdote ou religioso? Pelo caráter impresso na alma através do sacramento da ordem? Mas este sinal é invisível. Podemos distingui-lo apenas pela veste. Jesus diz que “ninguém acende uma lâmpada, para pô-la sob um vaso ou sob a cama, mas no candeeiro, para que alumie a todos os que estão em casa” (S.Mateus, 5, 14).  Ora, no mesmo versículo Jesus diz para os apóstolos: “ Vós sois a luz do mundo”. Qual é este candeeiro que não deixa esta luz escondida, no meio da multidão se não a veste clerical, o hábito religioso? Mas infelizmente muitos se envergonham de dar testemunho da sua missão e da sua condição de consagrados no mundo.


Aplicando tudo quanto dissemos sobre o hábito eclesiático ao traje do cristão, podemos seguir a mesma linha de raciocínio. A roupa não faz a pessoa, mas identifica. Identifica a profissão, o sexo, a dignidade e a honra.[2] Um autor de espiritualidade dizia: “Nunca um exterior imodesto encobriu um interior modesto”. Ninguém consegue ver o caráter impresso na alma de um batizado ou crismado, mas pode ver a condição dele de cristão pelo andar, pela sorriso, pela roupa que veste. Conta-se na vida de S. Francisco de Assis, que ele convidou um frade para uma pregação cidade. Depois de percorrerem toda a cidade, ao regressar ao convento, o confrade perguntou: – e a pregação? O santo respondeu: – “fizemos a pregação pelo nosso hábito e pelo nosso silêncio”.


Todos nós cristãos somos obrigados a dar testemunho da nossa fé não só por palavras, mas sobretudo pela nossa vida e até mesmo pela nossa veste. A todo cristão de certo modo Jesus também dirige as palavras: – vós sois o sal da terra, a luz do mundo. Mas como ser sal, se também o cristão se deixa corromper pelas modas mais indecentes, conforme vaticinou Nossa Senhora e Fátima: – Hão de vir umas modas que vão ofender muito a Jesus? Como ser luz, se o cristão usa roupas mais próprias dos filhos das trevas?


A forma como as moças “católicas” de hoje se vestem, fariam corar de vergonha as mulheres pagãs de outrora.[3] Estas católicas se envergonham da decência, enquanto as mulheres mulçumanas não temem se apresentar com suas túnicas longas e seus véus e até mesmo com as excêntricas burcas. Deveríamos distinguir a moça cristã na sociedade pela modéstia das vestimentas. Infelizmente os pregadores de hoje dificilmente falam sobre este assunto[4], mesmo porque eles próprios não dão testemunho da sua consagração através do hábito. Pior que isso, deixam que se invadam os templos com as mais aberrantes vestimentas e permitem que as pessoas assim trajadas participem dos santos mistérios e dos sacramentos. [5]


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Quando vamos a uma quitanda, qual o critério que usamos para escolher as frutas? Certamente que é pela aparência externa, pela casca. Não vamos comer a casca, que será descartada. Mas a casca da fruta vai nos dizer de alguma forma o conteúdo. Se a casca estiver avariada, é porque o interior está podre. Não podemos usar do mesmo critério para o homem ou a mulher?  Qual é hoje a diferença dos trajes de uma mulher cristã e de uma meretriz ? Qual a diferença da roupa de um homem e de uma mulher[6]?  Infelizmente vivemos a era do “travestimento”. A roupa que vestimos não é o mais importante, mas não deixa de ter a sua importância para quem usa e para quem vê.


Deus não se contentou com as vestes de feitas de parreira de nossos primeiros pais que viviam sozinhos no paraíso e que eram esposos, mas teceu para eles túnicas de pele animal. Jesus por sua vez exalta a figura do precursor João Batista por não se vestir com roupas sensuais. Portanto Deus exige, além do coração puro, modéstia no nosso exterior.










[1] Até pesquisas científicas confirmam o que já sabíamos pelo estudo da Doutrina Católica: “O pudor é modéstia. Inspira o modo de vestir.” Catecismo da Igreja Católica §2522




[2] Discurso do Papa Pio XII aos delegados do Sexto Congresso Internacional de Alta Costura: “o vestuário expressa visivelmente e de um modo permanente a posição de uma pessoa. Isso varia de acordo com sexo, idade e função social”.




[3] O vestuário não deve ser avaliado segundo a estimação de uma decadente ou corrupta sociedade, mas de acordo com as aspirações de uma sociedade que premia a dignidade e a seriedade da sua veste pública. Geralmente é dito quase com passiva resignação que a moda reflete os costumes do povo. Seria mais exato dizer – e muito mais útil dizer – que ela expressa a decisão e a direção moral que uma nação tenciona a tomar: ou ser naufragada na licenciosidade ou se manter a si mesma num nível a que foi elevada pela religião e pela civilização.

 




[4] Carta do Sagrado Concílio aos Bispos sobra a imodéstia, 15 de agosto de 1954: “Vós, acima de tudo, a quem o Espírito Santo deu poder como Bispos, para reger a Igreja de Deus”[5], vós, Bispos, tendes que considerar cuidadosamente este tipo de assunto, tomar sob vossos cuidados e promover com todo vosso poder toda iniciativa para proteger a modéstia e restabelecer a moralidade cristã. “Nós somos templos de Deus, pela presença e ação do Espírito Santo em nós; e a guardiã, a sacerdotisa deste templo é a modéstia, que não permite que nada impuro ou vulgar entre por medo que Deus, que mora dentro, o abandone, ofendido por esta habitação manchada pelo pecado.”[6] Agora, como todos podem ver facilmente, o modo atual de vestuário entre mulheres, e especialmente entre as meninas, constitui uma ofensa séria contra a decência, e decência é “a companheira da modéstia, em cuja companhia a própria castidade está mais segura”[7]. Então é completamente imperativo prevenir e exortar, do modo que pareça mais hábil, pessoas de todas as situações, mas particularmente a juventude, a ficar livre dos perigos desse tipo de vício que é, sem dúvida, diretamente oposto e potencialmente tão perigoso aos cristãos e à virtude cívica, deixando-os disponíveis para maiores perigos. “Quão bela é a modéstia e que pedra preciosa ela é entre as virtudes!”[8] Então cuidemos para não pecar contra ela ou manchá-la, deixando-nos ser atraídos pelos vícios que surgem com a moda, ou por outros instrumentos de sedução que nós mencionamos acima e aos quais as pessoas decentes podem apenas lamentar.”



[5] Lê-se na Carta da Congregação do Concílio sobre a moda indecente feminina, de 1930 em seu artigo IX: “Donzelas e mulheres vestidas indecentemente devem ser impedidas de receber a Comunhão e de atuar como madrinhas dos sacramentos do Batismo e da Confirmação, e, além disso, se o delito for extremo, podem mesmo ser proibidas de entrar na igreja.







[6] Sobre o problema moral da calça usada pela mulher indico o estudo da Notifcação do Cardeal Siri.

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