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O meu trabalho é a família



 

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ArtedeLiz (facebook)



Por Luciana Allora, assistente familiar


O meu trabalho, gosto de lhe chamar assim, é a família, porque a minha ocupação profissional são os trabalhos que se denominam domésticos. São Josemaria Escrivá sempre apreciou muito e definiu como fundamental o conjunto das atividades domésticas porque contribuem de modo determinante para criar um clima, um ar de família, lares luminosos e alegres, como costumava dizer. Clima, ambiente de alegria, e luminosidade não são algo sensível, mas sim fruto de uma infinidade de detalhes e de pequenas coisas materiais que são expressão do afeto, doação de si, do próprio tempo, com esforço pessoal, por amor aos outros.A característica fundamental do trabalho do lar é o facto de ser um serviço, e um serviço direto a algumas pessoas de quem se está particularmente próximo física e moralmente. E a sua razão mais profunda é o amor. Se falta o amor, serão prestados serviços de alimentação, de lavanderia, mas não será um trabalho doméstico no seu significado genuíno. Precisamente porque está intimamente relacionado com a capacidade de amar, o trabalho do lar, além de participar dos valores de qualquer outro trabalho, confere uma dignidade e uma gama de possibilidades de aperfeiçoamento pessoal a quem o desempenha. De facto, facilita o desenvolvimento das virtudes humanas que tornam agradável a convivência, como a serenidade, a alegria, o bom humor, a fortaleza para enfrentar com espírito desportivo as pequenas dificuldades da vida corrente, a paciência, a delicadeza, a capacidade de ouvir e de pressentir as necessidades dos outros, a solicitude para com todos. O desempenho habitual desta profissão leva a dar-se com generosidade e com naturalidade; exige, enfim, uma personalidade forte.

Estes trabalhos que tornam possível a vida da comunidade familiar, não são uma série de serviços (alimentares, de limpeza, etc.) necessários para conservar a vida física das pessoas e manter o ambiente que as rodeia, mas têm como objetivo imediato o bem estar dos que vivem em casa e indiretamente contribuem, sem dúvida, para o desenvolvimento da vida espiritual. Serão sempre necessários porque dão resposta a exigências evidentes da vida humana. Com a evolução dos sistemas de vida da sociedade, podem variar as formas concretas de organização e os modos de os levar a cabo, mas estarão sempre presentes, em todos os tempos e culturas. Não se pode pensar na família sem este aspecto e sem estes serviços, como não se pode pensar na pessoa sem esse ambiente próprio chamado lar.

Porque o trabalho doméstico tem como base e fundamento a dignidade da pessoa, ele adquire uma transcendência insuspeitada à primeira vista, que São Josemaria Escrivá soube captar e transmitir com toda a sua profundidade e beleza. Ao ser reflexo do amor, precisamente no âmbito familiar que é o lugar para viver e aprender a querer, este trabalho tem a possibilidade de aproximar as pessoas de Jesus Cristo. A afirmação “servir é reinar” encerra uma grande verdade: procurar a satisfação pessoal deixa um vazio, enquanto que tornar a vida agradável aos outros e contribuir para a sua felicidade, realiza, de facto, como Cristo que reinou servindo.

Os ensinamentos e a pregação de São Josemaria Escrivá sobre a santificação do trabalho e das atividades que compõem a vida corrente contribuíram para iluminar milhares de pessoas em todo o mundo e para dar um novo sentido à sua ocupação profissional qualquer que ela seja, também aquelas aparentemente mais humildes e escondidas. Neste sentido, o trabalho do lar pode dizer-se que está a dar os primeiros passos, a começar a adquirir o seu valor social, já que é uma realidade essencial para o homem, para a família e para toda a sociedade. Pouco a pouco vai-se descobrindo com que propriedade se aplicam a este trabalho as palavras de São Josemaria Escrivá: “Há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns…”

Quando conheci a mensagem de São Josemaria Escrivá impressionou-me profundamente a sua força e a sua grandeza; pode viver-se, e de facto muitas pessoas com quem contactei a vivem. A minha vida deu uma volta não só interior, espiritual, mas também profissional. O que me levou a reconsiderar a minha escolha profissional e a decidir-me por esta ocupação não foi tanto descobrir um interesse ou uma certa inclinação para ela, mas precisamente a riqueza interior que, seguindo os ensinamentos de São Josemaria Escrivá, descobri nas pessoas que desempenham este trabalho.

Um trabalho que, por tantos motivos, São Josemaria Escrivá gostava de comparar ao de um artesão, de um artista. Sabe-se que uma obra de arte se aprecia, para além daquilo que ela exprime, pelo esforço, o engenho e o tempo dedicados na sua realização. O tempo é precioso e investi-lo numa obra aumenta o seu valor. No trabalho doméstico, hoje em dia, o progresso técnico e a crescente automatização conduz a uma poupança de tempo apreciável. Contudo, parece-me importante fazê-lo na medida justa, sem que se torne numa prioridade: refeições rápidas, à base de enlatados, podem tornar-se num risco de despersonalização do ambiente do lar. Um jantar bem preparado, que procura por vezes surpreender, uma mesa convidativa e uma sala de estar acolhedora podem ajudar a que o ânimo de quem regressa a casa, depois de um intenso dia de trabalho, recobre serenidade, paz ao sentir-se motivo de atenções… O fator tempo quando se dedica aos outros é uma expressão de generosidade…
E falando de tempo e de generosidade não me refiro só a ter iniciativas que exigem um certo esforço, como pode ser um prato fora do comum, mas também a disponibilidade para as coisas “fora do programa”, a capacidade de compreender e intuir o que cada pessoa necessita em determinados momentos.

Certamente alguns trabalhos considerados em si mesmos podem parecer pouco atrativos e gratificantes, mas, como sucede em tudo, o atingir um objetivo dá sentido e gosto a todos os meios para a sua realização. Um artista, um escultor, um pintor, enquanto realiza a sua obra de arte, muito provavelmente passará momentos em que se suja de gesso ou de tinta e poderá experimentar cansaço, mas o pensamento da sua obra não só o leva a não desistir, mas torna amável aquilo que aos olhos de um estranho parece enfadonho. E, quando a obra de arte não é um objecto mas a própria felicidade das pessoas, quem se atreverá a dizer que não vale a pena?


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