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O que é ser equilibrado?



Por Luciana Lachance


Enquanto o apostolado a favor da modéstia cresce (no mundo como um todo), vemos também crescer junto com ele a bandeira do “equilíbrio”, levantada por aqueles que julgam a modéstia extrema demais, e por isso buscam uma posição conciliadora que lhes permitam um ponto médio: entre a modéstia (a exemplo do que apresentamos aqui) e a moda mundana. Desta forma, reivindicam constantemente que é preciso haver uma posição moderada acerca do assunto, de modo que certos decotes, comprimentos, etc., (como o tomara-que-caia, a saia acima do joelho, as costas nuas), possam ser usados pelas moças católicas, como mais uma opção de roupa modesta. Diante disso, que tanta confusão traz às nossas irmãs católicas – preocupadas em agradar a Deus, mas também profundamente desorientadas pelos maus costumes e pela falta de boa formação – precisamos entender qual é realmente o nosso modelo de modéstia, para então também compreendermos que equilíbrio é esse que está nos sendo proposto, e se vale a pena tê-lo como parâmetro.


Qual é o nosso modelo de modéstia?


Nós estamos tão distantes da modéstia que não somos capazes de reconhecê-la. Perdemos a coerência quando nos despimos das nossas roupas e nos aproximamos de uma imagem da Sempre Virgem Maria, mostrando ao mundo quanto contraste há em tal cena: entre as nossas calças justas e nossas blusas decotadas e a castíssima Virgem, coberta com seu véu e seu manto sagrado. Hipócritas, respondemos que é este o nosso modelo de feminilidade, que é esta Virgem Puríssima a primeira mulher a nos influenciar – nós, que estamos muito mais próximos da imagem e dos hábitos das celebridades mundanas, do que dos autênticos modelos de santidade. Se a nossa Santa Mãe nos fosse verdadeiramente conhecida¹, talvez pudéssemos seguir seu exemplo de modéstia com menos sofrimento do que fazemos hoje, ao relutarmos tanto para abandonar aquela blusinha de alça ou a calça jeans. O mundo nos força a conhecer os casamentos, separações e depressões dos famosos, mas nos contentamos em saber tão pouco sobre a nossa Mãe do Céu!


E a Virgem Maria, que é nosso maior exemplo para tudo enquanto católicas, é constantemente empurrada por nós à distância, como se a sua perfeição absoluta fosse motivo não para buscá-la, mas para nos conformarmos na nossa mediocridade. Dizemos (apesar de tudo em nós demonstrar o contrário) que seguimos a Virgem Maria, mas se questionadas do porque de não nos vestirmos com pudor como Ela, ou porque não somos castas (na nossa condição de solteiras, noivas, casadas ou religiosas) como Ela, dizemos que nestas questões não é possível fazê-lo, que “Ela é Ela”, que “aí você já quer demais” ou mesmo blasfemamos (como já vi acontecer) que Nossa Senhora aprovaria o nosso biquininho, sem traumas. Quando falamos que nossa Mãe Pura é de tal forma “demais”, não estamos enaltecendo as suas virtudes perfeitíssimas, mas estamos nos recusando a segui-la, afirmando, em outras palavras, que Ela é de fato um extremo que não deve ser buscado à risca, e que devemos encontrar, entre o modo de ser da mulher moderna (representado, entre outras, por Juliana Paes, Paola Oliveira, Scarlett Johansson) e Nossa Virgem Prudentíssima, um perfeito equilíbrio para sermos boas católicas.


Só os insensatos procuram, entre a lama e a pureza, o equilíbrio que os levará à imundice, ao invés de buscar exclusivamente a pureza (conservando, nesta busca, o perfume das flores, como alguém que não pode ser uma rosa, mas pode conservar o odor atravessando um roseiral).


Apresentadas ao modelo de modéstias, convidadas a desistir da nudez das praias, das calças, dos decotes, dos joelhos à mostra, das costas reveladas, nós achamos isto extremismo – achamos que tudo não pode passar de uma alucinação, de uma proposta puritana que pretende tachar como amoral qualquer centímetro à mostra. Diante de textos de papas, de santos, de autoridades eclesiásticas, das sagradas escrituras, apenas gritamos um sonoro Não! para tudo, tendo como defesa o nosso amor-próprio e nosso vício pela moda imodesta. “Então eu não posso usar alcinhas? – perguntam para logo se justificaram: Daqui a pouco irão querer que eu use burcas! É preciso equilíbrio, não podemos ser assim!


E qual é, precisamente, o equilíbrio que se chega depois dessas considerações frente à “modéstia extrema” que nos foi apresentada contra a moda imodesta? O equilíbrio de continuar usando as alcinhas, os decotes e as calças justas!


De fato, nós somos hipócritas.


Mas se, ao contrário, nós superamos e renunciamos a nós mesmos, talvez estejamos realmente interessados no que seja o verdadeiro equilíbrio, que não pode ser como o descrito acima.


O que é ser equilibrado?


Todos querem ser equilibrados, pois o equilíbrio é a medida da perfeição, é a garantia de que estamos fazendo as melhores escolhas – não devemos comer demais nem de menos, não podemos ser covardes nem temerários, não podemos ser desleixadas nem vaidosas . E de onde vem esta busca pelo equilíbrio, que permeia os nossos discursos, que se torna objetivo em nossas vidas?


Primeiramente, precisamos nos desfazer da idéia de “equilíbrio” que se tornou comum neste período em que vivemos (de grave empobrecimento moral e intelectual), como se equilíbrio fosse o ponto médio entre a degeneração e a mais alta virtude, como se a busca por ele fosse a busca por sermos medíocres. Quem, querendo ser casto, procuraria entre a completa imoralidade e a pureza (de modo que terminaria por ter relações antes do casamento)? Precisamos entender que quando um modelo de excelência moral² nos é apresentado, ele precisa ser bom e verdadeiro. Ora, haveria algum ponto médio entre a verdade e a mentira? Logicamente, não. Avancemos, pois: quando dizemos que o nosso modelo é a castidade, estamos apresentando o exagero do que queremos? Não, estamos precisamente apresentando aquilo que definimos por equilíbrio, ou seja, o ideal, a nossa idéia de perfeição. É o equilíbrio porque qualquer coisa que esteja abaixo da castidade – da mais leve impureza, passando pela fornicação à total depravação – não corresponde a ela, e continua sendo equilíbrio porque se você considerar esta virtude acima do que realmente é, irá provavelmente enlouquecer com ela – irá se trancar num quarto de mãos atadas ou criará uma heresia como o puritanismo. A castidade é o equilíbrio perfeito, e ela lhes é apresentada para ser seguida, não para ser comparada à moral do mundo.


Foi Aristóteles3 um dos primeiros a afirmar que qualquer espécie de excelência moral (a coragem, a moderação, a justiça, etc.) é um meio-termo, citando que “a bondade é uma só, mas a maldade é múltipla4; e ele foi além ao dizer que não só a excelência moral é um meio-termo, como a maldade não admite meio-termo. Que quis ele dizer com tudo isso? Ora, para Aristóteles as virtudes excelentes admitem equilíbrio porque o excesso ou a falta lhes retira a natureza (por exemplo, se a coragem é a perfeição, alguém que não tenha coragem se torna covarde, enquanto a pessoa que exerce a coragem em excesso torna-se temerária e imprudente, de modo que nenhuma das duas coisas é boa). Já a maldade é sempre má, e não importa se você será muito ou pouco impudico, muito ou pouco invejoso, muito ou pouco covarde, pois “a maldade não está no excesso ou na falta, ela está implícita em seus próprios nomes. Nunca será possível, portanto, estar certo em relação a elas, estar-se-á sempre errado.” Explicitemos em termos ainda mais claros:


1 – Não se pode ser muito ou pouco modesta, ou se é modesta ou não é; e nisto reside o fato de que a modéstia é o meio-termo e o equilíbrio. Quando se pretende dosar a modéstia, para mais ou menos, está se saindo dela, e fatalmente caindo nos erros já mencionados.


2 – A imoralidade, sendo maldade, continua má – seja se você escolheu usar o maiô-arrastão com mini-saia, seja por usar os ombros nus fora da missa. Nisto reside que a maldade não admita meio-termo: de fato, se pode ser muito ou pouco mau, mas muito ou pouco mau, ainda é maldade. Como o veneno é impróprio para o homem, também imprópria a água limpa servida num recipiente contaminado.


Donde depreendemos o porquê de sermos tão obstinados por buscar o equilíbrio – mas nossa obstinação só será louvável se realmente soubermos que equilíbrio é este, e não formos enganados por venenos mortais bem apetecíveis à concupiscência dos olhos


A modéstia: verdadeiro equilíbrio


Sendo a modéstia uma excelência moral, estamos agora certos de que ela é o verdadeiro equilíbrio, pois se ela não fosse o equilíbrio não seria excelência, mas maldade. Aquelas que julgam escolher o caminho da moderação por incluir, junto com algumas roupas modestas, peças imorais, de caráter duvidoso, com apelo sensual, que revelam da mulher aquilo que deveria estar velado para a glória de Deus, estão escolhendo por si mesmas o que seja modéstia ao invés de confiar nas recomendações da Tradição da Igreja. Pior, estão dosando a perversão em suas vidas, acreditando estar acima do bem e do mal, inventando que não é possível definir o que é exatamente a modéstia, e que portanto esta pode admitir diferentes concepções.


Acaso não podemos definir o que seja modéstia? Mas como, se o nosso modelo e a modéstia por excelência é Nossa Senhora, a excelência das virtudes, a perfeitíssima criatura de Deus, a Virgem das virgens? Sendo nosso modelo nossa Santa Mãe, que dúvida por haver de como nos portar, se podemos sempre nos voltar para Ela, e perguntar nos seus braços aquilo que Ela quer fazer de nossas vidas? Como duvidar do que seja modéstia quando se pode olhar para ela?


Vimos que a maldade do mundo é múltipla, e ela se manifesta de diversas maneiras – está também no discurso supostamente conciliador, especialmente nos dias de hoje em que ser equilibrado é usar um pouco do que é bom e do que é mal. O sr. Grégorio Vivanco Lopes 5, escrevendo artigo em que propõe uma invocação da Virgem Maria como Nossa Senhora do perfeito equilíbrio esclarece:


Insisto na palavra ‘equilíbrio’, não obstante seu uso estar muito deturpado em nossos dias. Segundo certa mentalidade corrente, ser equilibrado significaria ser abúlico, não ter opinião definida a respeito de nada, nunca defender o bem contra o mal, nem a verdade contra o erro. Mereceria o epíteto de ‘equilibrado’ apenas quem fosse um perpétuo conciliador ecumênico, desses que qualificam de extremismo toda atitude categórica, e para os quais dedicar-se a uma causa é ser radical, afirmar uma verdade é ser intolerante. Em outros termos, só os relativistas e os songamongas seriam equilibrados.


E a Santíssima Virgem, escreve ele, é o perfeito equilíbrio, que se prova facilmente por seus magníficos atributos, “clemente, piedosa e doce” (Salve Rainha) e “terrível como um exército em ordem de batalha” (Cântico dos cânticos); e esse equilíbrio é provado não apenas porque seus atributos poderiam parecer paradoxais entre si, mas porque são todos eles excelentes, como excelentíssima é nossa Santa Mãe, a causa de nossa alegria. Notável ainda é que o sr. Grégorio Lopes acrescenta à invocação proposta por ele mais um atributo: “Nossa Senhora do perfeito equilíbrio e dos santos extremos”. Ora, o próprio Aristóteles esclarece, na sua explicação acerca da excelência moral, que “a respeito do que ela é, ou seja, a definição que expressa a sua essência, a excelência moral é um meio-termo, mas com referência ao que é melhor e conforme o bem ela é um extremo.”


Conforme o bem moral, o equilíbrio é um extremo! Extremo porque difícil é aceitar o alvo, e fácil errar; extremo porque é este o ponto mais árduo de ser alcançado, mas em contrapartida, o único a ser perseguido. G.K. Chesterton escreveu que, para cair, todos os ângulos servem, mas para ficar ereto há apenas uma posição!


Que alegria para nós que podemos seguramente clamar: “Nossa Senhora do perfeito equilíbrio e dos santos extremos, rogai por nós e mantém suas escravas no caminho da modéstia!”





Notas


¹ Verdadeiramente no sentido que propõe São Luís Maria Grignon de Montfort, no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem



² Aristóteles, em Ética a Nicômaco



3 Para a doutrina do meio-termo, ver Ética a Nicômaco, e mais especificamente, A Política de Aristóteles


4 Citação clássica de autor desconhecido, citada por Aristóteles em Ética a Nicômaco


Ver artigo disponível em:     http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?IDmat=BEA92935-3048-313C-2E0AE0ACD532BEA8&mes=Agosto2009



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