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Modéstia e beleza – a conexão perdida

Por Regina Schmiedicke   

Em seu livro “Man and Women”, Dietrich von Hildebrand aponta para uma particular “perfeição” da natureza feminina: “Nós encontramos nas mulheres uma unidade de personalidade pelo fato de que coração, intelecto e temperamento são muito mais interligados… Esta unidade do tipo feminino de pessoa humana, apresenta também em si mesma uma maior unidade da vida interior e exterior, em uma unidade de estilo abraçando a alma em si, bem como o comportamento exterior. “(1) Em outras palavras, as mulheres possuem um gênio especial para harmonizar a sua aparência externa com a sua vida interior, encarnando suas crenças e idéias em concretas, visíveis maneiras.


Infelizmente, como muitas mulheres tenham esquecido o que significa ser feminina, também nos esquecemos de como atingir a esta unidade. Em suma, enquanto muitas de nós mulheres católicas acreditam firmemente na castidade e pureza, a nossa roupa nem sempre reflete as nossas convicções. Para corrigir esta situação, precisamos recuperar o sentido da razão pela qual as mulheres no passado se vestiam modestamente, e como o modesto vestir “convém” à dignidade e a vocação da mulher. (grifos meus)


Na nossa sociedade fragmentada, vestuário diminuto tornou-se de alguma forma associado ao progresso social da mulher, como se o “direito” a usar menos indicasse que estamos subindo no mundo. Mas a minha casual visão geral da história me leva a quase o oposto desta conclusão. Parece-me que, na maioria das culturas, quanto mais roupa uma pessoa usa, mais importante esta pessoa tende a ser na sociedade.


Na história, os escravos eram muitas vezes forçados ficar nus; realeza e outros importantes personagens tinham vestes repletas de panos. Meninas camponesas, escravas e concubinas freqüentemente usavam vestidos curtos (mini-saias?), por vezes, para demonstrar que estavam sexualmente disponíveis. Mulheres de distinta posição social usavam vestes longas – rainhas do Egito antigo, França medieval, Inglaterra vitoriana – todas usavam vestidos que caiam aos seus pés.


Admito que meu conhecimento da antropologia é limitado, mas acredito que este foi o caso em quase todas as culturas até o advento do mais eficaz e disponível controle de natalidade, quando a situação mudou para aquilo que temos agora. Mesmo no desvalorizado o simbolismo da nossa cultura moderna, podemos encontrar restos da associação entre o vestuário e a dignidade humana. Juízes ainda usam togas, como o fazem os sacerdotes, bispos e papas. Em cerimônias, docentes e diplomados também usam. Na nossa sociedade, só as mulheres são culturalmente autorizadas a usar “vestes” a qualquer momento se assim o desejarem. Comecei a exercer a minha “prerrogativa cultural” para vestir togas (saias longas) com a maior freqüência possível, quando eu percebi como é crucial e valioso o papel da mulher na sociedade. Nós somos destinadas a ser muito mais do que objetos sexuais.


Vestir-se imodestamente é insensibilidade para com os homens. Na atual guerra dos sexos, os católicos podem trabalhar para a mudança, cultivando boas relações entre homens e mulheres, de amizades construídas na confiança e respeito mútuo. Tive o prazer de encontrar muitos jovens e finos homens católicos que se voltam para trás para compreender e acomodar a sensibilidade e o gênio especial de uma mulher. No entanto, na área de modéstia, a maioria das jovens mulheres católicas não correspondem ao tipo. Eu mesma estou confusa sem saber se isso é pura ignorância ou simplesmente uma atitude desleixada.


Uma vez uma educadora de castidade que conheço, que usava saias muito curtas, disse-me: “Se os homens têm um problema com as minhas roupas, bem, eles apenas têm que lidar com isso.” Esta atitude desrespeita a sensibilidade visual dos homens. O que os homens vêem afeta o modo como se sentem em uma maneira muito mais direta do que com as mulheres.


Um paralelo é uma mulher de vulnerabilidade emocional. Mulheres da FUS* estão familiarizadas com o “doce rapaz”, que está perpetuamente a discernir o sacerdócio ou evitar todos os compromissos. Este tipo de homem torna-se atraente para as jovens pela atenção que eles dão a elas. Ele flerta e gasta muito tempo com elas, tantalizando** com a idéia de que ele é romanticamente interessado. Um dos maiores problemas com o “Sr. discernindo o Sacerdócio” é que a sua ofensa é tão inocente e tão sutil que a maioria das meninas nem mesmo tenta endireitá-lo. Isto é muito semelhante à dificuldade que os homens têm quando as mulheres vestem-se imodestamente. Pode incomodá-los, mas eles realmente preferem não dizer isso para a garota em questão.


Após ter conversado com uma boa quantidade de homens católicos sobre o assunto, o meu palpite é que a maioria dos homens puros que vivem nesta cultura tem visualmente entorpecido a si próprios para o imodesto modo de vestir da maioria das mulheres, incluindo as mulheres cristãs que conhecem. Se a mulher está vestida com uma saia curta ou uma blusinha apertada, eles “ajustam-na” visualmente – eles não olham para ela a não ser que precisem, e evitam ficar perto dela.


Este “ajuste”*** permite que os homens castos evitem o pecado da luxúria, apesar da abundância de oportunidades à sua volta. Mas, da mesma forma que as mágoas tem feito muitas mulheres menos vulneráveis emocionalmente, eu acho que este visual entorpecimento da sensibilidade masculina não vai ajudar o crescimento na caridade entre os homens e mulheres na Igreja.


Numa altura em que alguns homens estão aprendendo a respeitar as suas mulheres como iguais, muitas mulheres estão se rebaixando aos olhos dos homens devido ao modo como se vestem. As mulheres se queixam da falta de cavaleiros de armadura brilhante, embora não tenha ocorrido a muitas delas que elas estão bem distantes de se vestir como as castas Ladies dos tempos do cavalheirismo.


Em conversações sobre modéstia, tenho freqüentemente ouvido o comentário de que uma mulher católica não deve usar qualquer coisa que a Virgem Maria não usasse. Embora eu concorde com isso, vou observar que eu nunca vi uma memorável imagem da Virgem Maria vestindo um vestido deselegante, feio. Pelo contrário, suas vestes são geralmente drapejadas suavemente, lisonjeiras para sua figura feminina. Ela raramente é retratada em cores muito fortes, cores claras abundam nas suas vestes, por vezes elaboradamente. Em uma palavra, a Santíssima Mãe é retratada vestida belamente. Aqui eu sinto que está a chave para o problema da modéstia.


Alguns infelizes impulsos Jansenistas ou Puritanos na imaginação Católica moderna têm equiparado modéstia a esconder a figura feminina. Aparentemente, muitas mulheres católicas pensam estar sendo modestas vestindo roupas não atraentes. Poderia ser por isso que mesmo as mulheres em profunda conversão espiritual evitam discretamente a idéia de adotar vestimentas modestas? Eu tenho visto muitas de minhas amigas católicas aproximando-se de seu amado Salvador na Eucaristia, ou, infelizmente, a entrar para o Sacramento do Matrimônio, praticamente sem qualquer noção de como a sua aparência exterior está em contradição com as suas convicções interiores. Eu tenho detectado nelas um medo de serem vistas como uma puritana ou de não estar com um “visual agradável”- como se modéstia e graciosidade fossem intrinsecamente! Claramente, a nossa imaginação cultural precisa de uma revisão geral.


Penso que estamos ignorantes, de maneira profunda e trágica, do grande fascínio e esplendor da modéstia. Homens me disseram que uma garota vestindo-se modestamente foi “uma lufada de ar fresco”, “delicioso de estar junto”. Com sua sensibilidade visual, os homens são livres para olhar para uma garota vestida castamente e apenas desfrutar de olhar para ela, sem um traço da tentação sexual. Modéstia ligada à beleza traz consigo uma libertação entre homens e mulheres que mal podemos imaginar.


A nossa sociedade precisa desesperadamente de mulheres que recuperem o senso de saber vestir modestamente roupas adequadas à nossa dignidade e vocação. Fico deprimida ao ver quantas jovens mulheres católicas fortes, amáveis e devotas, incluindo algumas que estão na linha de frente da defesa da fé, parecem não ter noção da nobreza dos seus próprios corpos, e são conteúdos de possíveis tentações, em vez de serem “lufadas de ar fresco” na sociedade.


Pelo o que tenho visto, a cultura do vestir-se mesmo entre a ortodoxa elite católica foi mais afetada pela Vogue do que pelo Vaticano. Em muitos encontros sociais católicos e casamentos de Steubenville, mini-vestidos pretos e ombros nus abundam como se usar vestimentas modestas fosse apenas para as ortodoxas ordens de freiras. O carisma dos leigos para a mudança de cultura não está em evidência.


Após ter mencionado o Vaticano, vou deitar fora uma solução concreta como ponto de partida. As mulheres que querem ver o interior de muitas igrejas na Itália, devem cobrir os seus ombros e as pernas até abaixo do joelho. Alguns podem estar familiarizados com as “Regras do Papa”. Em 1940, pediram a opinião de Pio XII sobre o que as mulheres que ensinam nas escolas italianas devem usar para preservar a sua modéstia. Com a delicada reserva de qualquer homem comum indagado sobre o vestuário feminino, ele simplesmente indicou “abaixo do joelho, a meio caminho para baixo do braço e dois dedos de largura abaixo da clavícula.” Considero estas orientações bastante razoáveis.


E longe de serem restritivas, tais regras efetivamente libertam as mulheres. Tal como Coco Chanel, a estilista francesa disse uma vez, a liberdade de uma mulher envolve a liberdade de movimento. Em um traje que incorpora as regras do Papa, uma mulher pode cruzar as pernas, esticar, dobrar para baixo para pegar um lápis, ou espiralar com suas pernas por baixo dela, sem se preocupar com a barra da saia. Ela pode agachar-se para conversar com uma criança pequena, sentar-se em estilo indiano, ou deitar no chão para assistir um filme sem se preocupar com exposição indevida. Em uma saia que é longa e cheia o suficiente, uma mulher pode escalar árvores, montar cavalo, e até mesmo ser jogada às costas de um homem enquanto dança – sem ser imodesta. Seria de pensar se mais meninas optariam por vestidos mais modestos por mera questão de conforto, mas outra heresia em nossa cultura decaída tem sido o equívoco de que uma mulher tenha que usar um vestido formal com altíssimos e desconfortáveis saltos.


Creio que as mulheres são poderosas. Creio que o modo como se vestem e procedem como a coroa da criação tem grande potencial para proclamar a verdade. Sem qualquer ativismo, pelo gênio da mulher em apenas “ser”, uma mulher católica pode ser uma poderosa evangelista do Evangelho da Vida, sem falar uma palavra, pelo modo como ela veste-se, move-se e desenvolve-se. É tempo de estabelecer as mulheres católicas para exercer sua criatividade e inventividade para criar um padrão de vestuário que reforce a sua vocação, em vez de se diminuir a partir dele. Rezo para que a expressão “um templo do Espírito Santo” não lembre uma vaga resposta do catecismo dissociada da realidade concreta. Meu sonho é que algum dia, sempre que alguém veja uma mulher católica, veja um impressionante lembrete, uma encarnação moderna, e um ícone vivo de uma donzela judia do primeiro século a quem um anjo disse um dia que ela seria a esposa do Espírito Santo.


Regina Doman Schmiedicke, que graduou-se na FUS* em 1992, escreve de Front Royal, Virginia. Ela é a autora de vários romances conto de fadas para adolescentes, e um livro infantil.

Traduzido por Andrea Patrícia


Notas da tradutora:


*FUS: Franciscan University of Steubenville

** no original “tantalizing”, do latim Tantalus: significa possuir a qualidade de estimular desejo ou interesse na outra pessoa mantendo-se fora de seu alcance. Tântalo

*** no original “tuning out”.

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