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Moda praia: moral de situação?



Por Luciana Lanchace


Muitas moças católicas que começam a se preocupar com a maneira de se vestir enfrentam dificuldades para se livrar de determinadas peças, para delimitar o comprimento dos vestidos, para se decidir entre abandonar ou não as calças. Algo, porém, permanece excluído da linha de raciocínio quando decidem tirar do guarda-roupa as peças que passarão por sua análise e triagem: é a roupa de praia.


Esta situação é semelhante à do casal católico que se converte e volta à Igreja de boa vontade, vai às missas, reza o terço, procura santos de devoção, mas não revê a sua conduta moral e evita filhos com métodos anticoncepcionais de todos os tipos, simplesmente pelo fato de que não conseguem enxergar algo de errado nisto. De nosso catolicismo, parece a moral ter sido seqüestrada, de modo que temos dificuldade até mesmo para nos servirmos de fontes doutrinárias que nos guiem nas dúvidas – e isto porque também nos foi enxertado uma aguçada capacidade de duvidar de antemão destas fontes. Embora atualmente a produção de material catequético (digo mais especificamente da realidade brasileira) que se destine a ensinar a moral católica seja quase nula ou absolutamente deficiente, ainda nos é possível consultar muitos dos catecismos e livros produzidos no passado acerca do tema no nosso país, ou materiais traduzidos; ademais, sempre podemos recorrer aos escritos de todos os santos, papas, congregações, etc., que ao longo dos séculos nos legou material suficiente para nos guiar no reto caminho da nossa fé católica. Imitamos rapidamente as orações criadas por Santa Tereza D’Ávila no século XVI mas não estamos muito certos se o decote feminino que Jacinta¹ condenou em pleno século XX ainda está condenado para os dias de hoje.


A nossa moça católica, portanto, que se vê impelida a rever seu guarda-roupa sente uma dificuldade que é completamente ordinária no nosso país: a de saber o que moralmente, de acordo com a sua religião, lhe é permitido ou não. Se a extensa maioria das mulheres que freqüentam as igrejas (seja porque não são exatamente praticantes, seja por ter uma formação péssima) não pensa no vestuário e no comportamento adequado a uma cristã, a minoria que procura mudar enfrenta esse dilema. Quem elas irão encontrar pela frente para ajudá-las a discernir será de extrema importância, pois elas podem encontrar ou a moral católica ou a moral do mundo deturpada e relativista, que se atreve não apenas a definir o que as mulheres em geral devem usar, mas também pretende definir o que uma mulher mais “certinha” (que quer ser modesta) tem de usar para escapar da linha geral: e essa moda relativista nunca quer a mulher modesta, ela apenas quer contentar a ânsia da moral feminina, lhe dizendo que se ela quer ser mais comportada, que coloque um bolero, que use uma saia ou calça menos colada, que ela seja elegante (e elegante hoje em dia, se tornou, erroneamente, o antônimo da palavra ‘vulgar’). Por isso a moda praia é completamente anulada para a mulher católica, pois o mundo deseja esta moda superada, circunscrita a valores extraordinários, dotada de mecanismo próprio de comportamento, um país estrangeiro no território nacional, onde o calçadão é a fronteira de uma civilização onde todas as particularidades, escolhas religiosas, políticas, etc., são apagadas para dar lugar a uma maneira de vestir que reduz todos ao mais completo anonimato: o biquíni, o maiô, a sunga. Neste território, supostamente neutro, seu amigo roqueiro, sua companheira do apostolado da oração, sua chefe esotérica, seu primo ateu, sua vizinha virtuosa, todos eles se vestem e seguem a mesma “moral da praia”: a moral que permite que homens e mulheres exibam seus corpos com peças minúsculas e altamente imodestas. Mesmo o católico que se pretende ortodoxo dá provas de deficiência neste ponto; não consegue enxergar que a sua defesa desta roupa de banho significa a defesa de uma zona onde a modéstia, a virtude da castidade, o comportamento distinto, a crença em um Deus salvador, se torna inviável: tudo é suspenso pelo período em que ele estiver exibindo o seu corpo despido no meio de outros. É a zona do mais completo agnosticismo, é a zona onde a condenação do decote por Jacinta terá de desaparecer para tornar possível e lógico todo aquele comportamento indecente.


A católica olha para o biquíni em cima da sua cama – aquelas duas peças tão pequenas! – e ainda sente dúvida se deve voltar a aparecer na frente de quem quer que seja com ele. Ela ignora completamente como aquilo surgiu, como foi motivo de escândalo, como ele diminuiu incrivelmente desde a sua criação, como somente as strippers (!!) aceitaram fazer a divulgação desta peça na ocasião do seu lançamento, numa época em que mesmo as modelos liberadas se recusaram a fazer a publicidade dele. E hoje, uma mãe de família, uma católica, uma devota de Nossa Senhora, faz pior do que a stripper Micheline Bernardini² e usa-o tranquilamente nas praias e piscinas, entre amigos e estranhos. Se nada basta para alertar essa mulher, podemos lembrá-la, no mais completo desolo, para que ela tente raciocinar situações práticas na sua vida cotidiana: se esta mulher católica se lembrar que nenhum homem pode descobrir a sua nudez, exceto seu marido, se ela se lembrar que seu namorado/companheiro não pode vê-la de maneira pecaminosa, exibicionista, talvez ela comece a entender que não deve mais marcar um domingo na praia com aquele que pretende ser seu futuro esposo.


Também não é à toa que o dia do Senhor, nosso santo Domingo, dia de preceito, dia em que se incorre em pecado mortal se não formos à missa, se tornou o dia oficial da praia, o dia em que para todos e todas é permitido o “descanso”, o prazer, a nudez, o pecado. Esta moça católica acha, ingenuamente, que a única alternativa viável para substituir o seu biquíni é o “maiô”, – peça conservadora ou para mulheres acima do peso, segundo a moda atual – como se uma faixa colada a mais no seu corpo, que não mostrasse a pele da barriga, fosse capaz de deixá-la modesta, como se todo o seu corpo já não estivesse revelado e tudo o mais não estivesse igualmente à mostra. Canga ou short até o mergulho no mar? Só se cada mulher tivesse um mordomo particular que a acompanhasse até a beira da água, entrasse no mar de roupa e tudo, só depois despisse a roupa, e permanecesse estática na água, sem mexer o corpo e nem dar qualquer mergulho. Falamos do mundo real, e neste mundo os biquínis brasileiros são os menores, nas praias todos andam e se exibem praticamente nus, sendo ocasião de pecado para centenas de pessoas simultaneamente. Quem tem visão periférica sabe que independente de nos fixarmos ou não num ponto, somos capazes de perceber o que acontece ao redor – e na praia todos olham a nudez de todos. A coisa chegou a tal ponto que se torna necessário um estudo completo, com fontes, documentos, citações, históricos, em suma, todo um arsenal que poderia ser empregado para provar coisa mais edificante e absolutamente mais necessária do que provar a um católico que andar seminu na frente de outros é escandaloso.


Nossa natureza decaída está agonizante ao ponto de termos de explicar a esse católico que o biquíni revela o corpo de sua mulher para quem quer que o queira ver, quase como se tivéssemos de ensiná-lo um novo idioma; mostramos um corpo com este biquíni diante de seus olhos e temos de explicar que não vai adiantar muito esta mulher ir à missa bem vestida e de véu, e nesta missa chamar a atenção de Dona Juliana – que vai à Igreja de tomara-que-caia – se as duas se encontrarão no sábado na praia, ambas de biquíni, ambas a disposição dos olhares de outros. Os portugueses, quando chegaram ao Brasil, se escandalizaram com os corpos nus dos índios, e tiveram trabalho para vesti-los; se na época esses portugueses usassem sunga, provavelmente teríamos aderido ao naturalismo há 500 anos.


Não criemos a ilusão de uma moral de situação, achando que há ambiente e local para tudo – esta deturpação perniciosa de uma máxima do bom-senso. Sim, o bom-senso nos diz que há ambientes e locais que nos pedirão diferentes vestuários, mas ele não é um código moral, ele não é uma das cartas de São Paulo aos Coríntios. Ele é um guia que nos diz que devemos ir à escola de uniforme, à festas com roupa de gala, e ao mercado como costumamos nos vestir – e o que passar daí obedece apenas ao padrão moral de cada um. Definitivamente, o bom-senso não diz à mulher: não use decote! – ele diz: não vá à formatura do seu primo com a roupa de jogar tênis. A mulher modesta irá a essa formatura com um vestido que agrade a Deus, a imodesta irá com o balonê da última moda. E o bom-senso, ou o common-sense, tão discutido pelo nosso G.K. Chesterton, há muito deixou de ser nosso senso católico, há muito deixou de ser o verdadeiramente comum. Hoje ele pode ser qualquer coisa, pois atualmente o bom-senso parece dizer que não há coerência em alguém ir à praia de nudismo e permanecer de roupa – e nesses lugares a veste é expressamente proibida. Que a católica não crie para si, e para os outros, uma moral de situação, achando que o templo do Espírito Santo pode seguir a duas condutas e servir a dois senhores. Na praia, em casa, no trabalho e em qualquer lugar, que ela deseje ardentemente o Céu, que todas as suas ações e escolhas a mantenham no caminho de sua salvação eterna, e que se, ao contrário, ela deseja profanar este corpo que Deus lhe deu, oferecendo-o despido a outros, que ao menos ela não justifique o seu ato pecaminoso usando a moral católica como defesa.


Notas


¹ Jacinta, uma das pastorinhas videntes de Nossa Senhora em Fátima. Na ocasião em que ficou doente, no hospital, algumas enfermeiras e moças a visitavam com roupas indecentes: “Para que serve tudo aquilo? – dizia referindo-se a determinados enfeites e decotes – Se soubessem o que é a eternidade!…”


² O biquíni foi lançado em 1946, lançado por Louis Reard. Na época, o estilista não conseguiu encontrar nenhuma modelo que ousasse vestir a sua criação, até encontrar Michelline Bernardini, uma stripper francesa de 19 anos, a única a divulgar a peça publicamente. Daí ela foi seguida por diversas atrizes de Hollywood.



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