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O vestuário pode denegrir a pessoa


Alocução de S.S Pio XII aos Delegados do Sexto Congresso Internacional de Alta Costura[1]


(Modificação dos métodos antigos de trabalho – As repercussões nas profissões)



Foi dito frequentemente que entre os seres vivos o homem é um dos mais fracos, um desses que são muito privados de proteção natural. Mas Deus lhe deu inteligência que o permite compensar essa deficiência pelo exercício da indústria. Depende então de você completar, como quem diz, o trabalho do Criador, fornecendo a suas criaturas da mesma categoria a roupa da qual elas precisam. Cristo, fazendo um dia seus discípulos admirarem o traje delicado de uma flor simples dos campos, lhes falou: “Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles.”[2]




Se, então, as plantas e animais são formados em cores maravilhosas que atraem o olhar e compelem a admiração, não pode o homem, a este respeito, imitar o Divino Artista? Indubitavelmente ele busca, acima de tudo, proteger-se das inclemências do tempo, mas, assim que seja possível se libertar da rotina da vida diária, ele se esforça para se distinguir no estilo do seu vestuário por algum traço pessoal e característico. Além disso, o vestuário expressa visivelmente e de um modo permanente a posição de uma pessoa. Isso varia de acordo com sexo, idade e função social. E mostra a ligação do indivíduo com certas classes sociais e dentro destes grupos, o que lhe confere um status especial.




Especialmente as roupas formais têm o objetivo de tornar visível – através da riqueza do material e da costura impecável – a excelência daquele que as usa. Além desse aspecto utilitário óbvio, sua profissão tem um caráter verdadeiramente estético que garante sua originalidade e demandas além da habilidade manual, o uso dos dons da mente.




Essa é a razão pela qual a arte do alfaiate essencialmente escapa da mecanização. Sem dúvida, é também necessário assegurar até mesmo aqui uma produção intensiva que cumpre as necessidades diárias dos maiores números. Mas o lugar de honra sempre permanecerá com o trabalho incomum, no qual o artesão explora ao máximo as qualidades dos materiais utilizados e emprega todos seus recursos para realizar o ideal que ele concebeu.



 É característico de uma arte buscar constantemente se renovar, inventar formas incessantemente novas e enfatizar outros tons. É indubitavelmente necessário satisfazer os desejos do comprador, mas o produtor tentará chamar a atenção e solicitar o interesse dele pela beleza e sutileza do seu trabalho. Esse esforço é completamente justificável. Mas, por outro lado, o espírito materialista que inspira tão grande parte da civilização atual não poupou o campo de moda. Muito frequentemente é visto nesse campo um luxo provocante, que ignora toda a vergonha, só desejando lisonjear a vaidade e o orgulho. Em vez de elevar e enobrecer a pessoa humana, às vezes o vestuário tende a degradá-la e humilhá-la.

Mesmo se vocês não forem responsáveis por essas manifestações lamentáveis, não podem permanecer indiferentes a elas. Longe de manter a já muito forte inclinação para a imodéstia, sempre tenham o cuidado de respeitar as normas da decência e do bom gosto, de uma elegância sensatamente entendida e perfeitamente honesta. Em resumo, em vez de seguir a corrente materialista que está desviando tantas pessoas hoje, deliberadamente ponham-se vocês ao serviço de fins espirituais. Não é possível dividir a vida humana, fixar certas esferas nas quais a moralidade não tem nenhuma palavra a dizer. As roupas expressam de modo muito evidente as tendências e gostos que uma determinada pessoa pode vir a desenvolver no sentido de escapar de certas regras bem claras, as quais ultrapassam e governam o simples ponto de vista estético.



Se é necessário condenar a ostentação vã, é completamente normal para o homem tentar enriquecer pelo brilho exterior de suas das roupas as extraordinárias ocorrências da vida e através delas mostrar os seus sentimentos de alegria, orgulho ou mesmo tristeza. O vestuário branco de uma criança na manhã de sua Primeira Comunhão, o de uma jovem mulher no dia do seu matrimônio, não simbolizam o esplendor totalmente imaterial de uma alma que está oferecendo o melhor de si mesma? Além disso, e de acordo com a parábola do Evangelho, a entrada no Reino de Céu não está reservada somente para quem usar o misterioso vestuário de casamento que Deus requer dos que Ele chama, isto é, uma consciência clara e pura, cujas faltas foram apagadas pela Divina Graça que os transforma e os torna merecedores de aparecer diante de Deus? Não há aqui um ideal moral magnífico para a sua profissão?



Vocês trabalham imediatamente a serviço da pessoa humana, elevada por Deus a uma dignidade incomparável quando, pela Encarnação, Ele se tornou um membro da humanidade. Na mais humilde de suas queridas criaturas brilha a imagem do Filho de Deus. Assim como as mãos maternas da Virgem Santíssima se ocuparam para fazer as roupas de Cristo – talvez até mesmo aquele traje pelo qual no Calvário foram lançadas sortes por soldados desavisados do significado dos seus atos – assim é a Deus quem vocês continuam vestindo nos homens de hoje. Isso não é questão de puro simbolismo. Em uma das passagens mais solenes do Evangelho, o anúncio do juízo final, Cristo aludiu expressamente a esse trabalho de caridade: “Vinde, tomai posse do Reino que vos está preparado” Ele disse aos Seus eleitos,” porque eu estava nu e me vestistes”” E  acrescentou, “todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.” [3]

Essa passagem do Evangelho confirma a vocês, cavalheiros, uma promessa magnífica e uma grande consolação. Apesar das dificuldades que impedem o exercício de sua atividade profissional, não diminuam seus objetivos para a única questão do ganho temporal. Saibam permanecer sempre atentos ao profundo significado de seu trabalho e de sua  finalidade humana. Longe de impedir seu exercício, esse ideal os ajudará salvaguardando sua dignidade e os fará ter um justo orgulho da nobreza de sua tarefa.


(Bênçãos.)







[1] Alocução 10 de setembro de 1954. Papal Teaching, The Woman in the Modern Word, St. Paul Editions (1958)




[2] Mt 6, 29




[3] Mt 25, 34.36.40



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