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Feminilidade pós-feminismo: tédio e estresse

Fonte: Blog Rosa Maria


 Abaixo alguns trechos (muito bons) de duas entrevistas concedidas pela autora e teórica do pós-feminismo Camille Paglia, uma à Revista Veja e a outra à Folha de São Paulo, em 21 de outubro de 2007. A norte-americana de 60 anos – “a feminista que as feministas adoram odiar” – se diz cansada com o modelo de mulher apresentado hoje, critica o feminismo por ter denegrido a imagem da esposa e dona-de-casa, e mesmo atéia defende o ensino religioso nas escolas.


O interessante em um dos trechos é quando ela fala sobre os muçulmanos que sentem-se mal com a invasão da cultura de massa em suas vidas, que é revolucionária. Não são somente eles que se sentem mal. Todos aqueles que querem criar seus filhos dentro dos valores de sua religião, que defendem os valores da família- ou seja, os conservadores – têm problemas com a grande mídia e seu lixo empurrado para dentro das casas, principalmente através da televisão.


O mais interessante é ver uma feminista atéia reconhecendo certos valores tão caros aos cristãos!


Para ler e refletir. Os grifos são meus.


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VEJA – Tantos anos de pós-feminismo e as mulheres parecem continuar a viver em conflito diante de seus diversos papéis. Há solução à vista?


PAGLIA – Não. É um dilema terrível quando as mulheres aspiram a ter filhos e carreira. E é um dilema que não afeta os homens. Não por uma questão de discriminação da sociedade, mas simplesmente porque a natureza escolheu deixar o enorme fardo da gravidez para as mulheres. Vemos nos tempos modernos uma evolução da antiga família ampliada, da grande família tribal, em que diferentes gerações viviam juntas, rumo ao modelo em que as pessoas vivem isoladas em famílias nucleares, seja mãe, pai e filho, seja mãe divorciada e filho ou mãe solteira e filho. Isso põe as mulheres sob enorme pressão para fazer coisas que antigamente eram feitas pelas parentes. Antigamente, no interior, quando uma jovem ficava grávida, ela não fazia nada. As mulheres mais velhas a dominavam e ficavam dizendo “Vá descansar, saia da cozinha. O filho que você leva aí dentro é o nosso sangue”. Hoje, quanto mais bem-sucedida a mulher, mais distante ela está desse modelo comunal. Ela vive louca atrás de babá, empregada, enfermeira. Conseqüentemente, sofre um nível de intensidade nervosa e de exaustão sem precedentes na história. Alguém se lembra de ter tido uma avó agitada?


VEJA – As mulheres perdem com isso?


PAGLIA – Claro. A feminilidade americana hoje é estressada, é louca, é “superconceituada”. Todas as mulheres querem ser a Carrie de Sex and the City. Não acho nada estranho que tantos rapazes bonitos e inteligentes não queiram se casar ou sejam gays. O máximo que uma mulher jovem e bem colocada na carreira tem a oferecer é uma instigante conversa sobre trabalho ou um empolgante almoço de negócios. É um tédio conversar com elas. Aliás, estou cansada de falar dessas mulheres.


Trechos de entrevista a Folha:


FOLHA – Em um recente artigo, a Sra. defendeu o ensino religioso.


PAGLIA – Minha opinião é que a religião não deveria ter influência na política, mas ela é absolutamente central para a cultura e a experiência humana. Ainda que eu não acredite em Deus, considero as grandes religiões do mundo sistemas que de fato ajudam a entender os mistérios do universo e da vida humana. Quando intelectuais tomam a posição de que as pessoas inteligentes não crêem em Deus e que apenas os fracos ou os tolos acreditam no que diz a religião, é um desastre para os mais jovens. Não dá para entender o mundo e sua história sem conhecer as grandes religiões.


FOLHA – A religião é um dos aspectos do “choque de culturas” a que assistimos. Num conflito como esse, o que deve prevalecer: a defesa dos direitos das mulheres ou a autonomia das diferentes culturas?


PAGLIA – O feminismo, ao menos o americano, ficou paralisado por essa questão. Como criticar o tratamento dado às mulheres em certos países sem automaticamente criticar aquela cultura particular? Ao defender os direitos das mulheres, fica implícita uma idéia de “superioridade americana” em relação à cultura muçulmana.


A mídia de massa importa cultura, valores. Essas influências da mídia são consideradas por muçulmanos conservadores uma corrupção de seus valores. A cultura popular, os filmes, a música etc. são invasivos. No fim das contas, têm um papel revolucionário. Com o passar do tempo, onde a cultura popular ocidental vai há uma revolução cultural que se segue.


Alguém poderia pensar que então as mulheres seriam capazes de afirmar seus direitos. Como estudiosa de culturas antigas, digo que o Império Romano precisa ficar na nossa mente. A elite sofisticada da Roma Antiga pensava que seus valores durariam para sempre. Mas todas aquelas conquistas se perderam, assim como as nossas, por algum desastre natural, podem ser perdidas. Mas não uma mudança gradual.


FOLHA – A Sra. já disse que à evolução do capitalismo se deve a mulher emancipada. Não é natural esperar que países ditos subdesenvolvidos tenham mulheres emancipadas ao atingirem o desenvolvimento?


PAGLIA – Mas temos que ser realistas e reconhecer que isso é um produto da cultura capitalista ocidental, de um momento particular. Feministas têm freqüentemente valorizado ou venerado a “mulher de carreira” e a posto num lugar mais alto que a mãe e a esposa. Isso, porém, vai contra a maneira como a maior parte das mulheres no mundo se sente verdadeiramente.


O movimento feminista tende a denegrir ou marginalizar a mulher que quer ficar em casa, amar seu marido e ter filhos, que valoriza dar à luz e criar um filho como missão central na vida. Está mais do que na hora de o feminismo ocidental conseguir lidar com a centralidade da maternidade para a maioria das mulheres no mundo.


Não quero as feministas ocidentais destruindo valores e tradições de culturas locais. Feminismo deveria ser sobre mulheres terem a oportunidade de avançar, não serem abusadas e terem o direito de auto-subsistência econômica para não depender de um parente homem.

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