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A solução: famílias santas

A Carta às Famílias do Papa João Paulo II é um tesouro escondido. Nela, o Papa analisa a sociedade atual e oferece uma luz. A solução estaria em redescobrir o “grande mistério” que foi revelado para nós na doação total do Esposo, Nosso Senhor Jesus Cristo. A partir do seu Amor, reconheceremos que somente a união estável, fiel, livre e fecunda de um homem e uma mulher pode transformar a nossa cultura da morte em Cultura da Vida. Casais que tenham assim plena consciência do que significa o sagrado matrimônio e por tanto, a constituição de uma família são os protagonistas, silenciosos, de uma verdadeira revolução do amor. Vale a pena ler toda a carta, mas aqui cito o n. 19 apenas, com grifos meus.


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A própria família é o grande mistério de Deus. Como «igreja doméstica», ela é a esposa de Cristo. A Igreja Universal, e nela cada Igreja Particular, revela- -se de maneira mais imediata e concreta como esposa de Cristo na «igreja doméstica» e no amor aí vivido: amor conjugal, amor paterno e materno, amor fraterno, amor de uma comunidade de pessoas e gerações. Porventura será possível imaginar o amor humano sem o Esposo e sem o amor com que Ele amou primeiro e até ao fim?


Somente se tomam parte em tal amor e nesse «grande mistério», é que os esposos podem amar «até ao fim»: ou se tornam participantes dele, ou então não conhecem plenamente o que seja o amor nem quanto sejam radicais as suas exigências. Sem dúvida, isto constitui para eles um grave perigo.


A doutrina da Carta aos Efésios encanta pela sua profundeza e força ética. Ao indicar o matrimônio, e indiretamente a família, como o «grande mistério» em relação a Cristo e à Igreja, o apóstolo Paulo pode reafirmar uma vez mais aquilo que tinha dito anteriormente aos maridos: «Pelo que vos diz respeito, ame também cada um de vós sua mulher como a si mesmo»! E acrescenta: «E a mulher respeite o seu marido»! (Ef 5, 33). Ela respeita, porque ama e sabe que é correspondida no amor. É em virtude de tal amor que os esposos se tornam dom recíproco. No amor, está contido o reconhecimento da dignidade pessoal do outro e da sua irrepetível unicidade: de fato, dentre todas as criaturas da terra, cada um deles enquanto ser humano foi escolhido por Deus por si mesmo (45); porém, cada um, por um ato consciente e responsável, faz livremente de si próprio um dom ao outro e aos filhos recebidos do Senhor. S. Paulo prossegue a sua exortação, coligando-se significativamente ao quarto mandamento: «Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. “Honra teu pai e tua mãe”, que é o primeiro mandamento que tem uma promessa, “para que sejas feliz e tenhas longa vida sobre a Terra”. E vós, pais, não exaspereis os vossos filhos mas educai-os na disciplina e correcção segundo o Senhor!» (Ef 6, 1-4). Assim, o Apóstolo vê implícito no quarto mandamento o compromisso do respeito mútuo entre marido e mulher, entre pais e filhos, reconhecendo nele deste modo o princípio da estabilidade familiar.


A maravilhosa síntese paulina a propósito do «grande mistério» apresenta-se como o compêndio, a summa, em determinado sentido, do ensinamento sobre Deus e o homem, que Cristo levou à perfeição. Infelizmente, com o desenvolvimento do racionalismo moderno, o pensamento ocidental foi-se afastando pouco a pouco de tal ensinamento.



O filósofo que formulou o princípio «cogito, ergo sum » (penso, logo existo), acabou por imprimir à concepção moderna do homem o carácter dualista que a caracteriza. É típico do racionalismo contrapor radicalmente, no homem, o espírito ao corpo e o corpo ao espírito. O homem, pelo contrário, é pessoa na unidade do corpo e do espírito (46). O corpo nunca pode ser reduzido a pura matéria: é um corpo «espiritualizado», assim como o espírito está tão profundamente unido ao corpo que se pode qualificar como um espírito «corporizado». A fonte mais importante para o conhecimento do corpo é o Verbo feito carne. Cristo revela o homem ao próprio homem (47). Esta afirmação do Concílio Vaticano II, de certo modo, é a resposta, longamente esperada, dada pela Igreja ao racionalismo moderno.



Tal resposta reveste um importância fundamental para a compreensão da família, especialmente no contexto da civilização atual, que, como foi dito, parece ter, em muitos casos, renunciado a ser uma «civilização do amor». Grande foi, na era moderna, o progresso no conhecimento do mundo material, e também da psicologia humana, mas quanto à sua dimensão mais íntima, a dimensão metafísica, o homem de hoje permanece em boa parte um ser desconhecido para si mesmo; consequentemente, uma realidade desconhecida permanece também a família. Isto verifica-se por causa do afastamento daquele «grande mistério» de que fala o Apóstolo.



A separação entre espírito e corpo no homem teve como consequência a afirmação da tendência a tratar o corpo humano não segundo as categorias da sua específica semelhança com Deus, mas segundo aquelas da sua semelhança com todos os outros corpos presentes na natureza, corpos que o homem utiliza como material para a sua actividade destinada à produção de bens de consumo.



Mas facilmente todos se podem dar conta de quanto a aplicação ao homem de tais critérios esconda realmente enormes perigos. Quando o corpo humano, considerado independentemente do espírito e do pensamento, é utilizado como material ao mesmo nível do corpo dos animais, – como sucede, por exemplo, nas manipulações sobre os embriões e os fetos – inevitavelmente caminha-se para um terrível descalabro ético.


Numa tal perspectiva antropológica, a família humana está a viver a experiência de um novo maniqueísmo, no qual o corpo e o espírito são radicalmente contrapostos entre si: nem o corpo vive do espírito, nem o espírito vivifica o corpo. Assim o homem deixa de viver como pessoa e sujeito. Apesar das intenções e declarações em contrário, torna-se exclusivamente um objeto. Assim, por exemplo, esta civilização neo-maniqueísta leva a olhar a sexualidade humana mais como um campo de manipulação e desfrutamento, do que a olhá-la como a realidade geradora daquele assombro primordial que, na manhã da criação, impele Adão a exclamar à vista de Eva: «É carne da minha carne e osso dos meus ossos» (cf. Gn 2, 23). É o mesmo assombro que ecoa nas palavras do Cântico dos Cânticos: «Arrebataste o meu coração, minha irmã, minha esposa! Arrebataste o meu coração com um só dos teus olhares» (Ct 4, 9). Como estão distantes certas concepções modernas da profunda compreensão da masculinidade e da feminilidade oferecida pela Revelação divina! Esta leva-nos a descobrir na sexualidade humana uma riqueza da pessoa, que encontra a sua verdadeira valorização na família e exprime a sua vocação profunda mesmo na virgindade e no celibato pelo Reino de Deus.


O racionalismo moderno não suporta o mistério. Não aceita o mistério do ser humano, homem e mulher, nem quer reconhecer que a plena verdade do homem foi revelada em Jesus Cristo. Não tolera, em particular, o «grande mistério» anunciado pela Carta aos Efésios, e combate-o radicalmente. Num contexto de vago deísmo, reconhece a possibilidade ou mesmo a necessidade de um Ser supremo divino, mas recusa decididamente a noção de um Deus que se faz homem para salvar o homem.


Para o racionalismo, é impensável que Deus seja o Redentor, e menos ainda que seja «o Esposo», a fonte originária e única do amor esponsal humano. Aquele interpreta a criação e o sentido da existência humana de maneira radicalmente diversa. Mas, se faltar ao homem a perspectiva de um Deus que o ama e, por intermédio de Cristo, o chama a viver n’Ele e com Ele, se à família não for aberta a possibilidade de participar no «grande mistério», o que é que resta senão a mera dimensão temporal da vida? Resta apenas a vida temporal como campo de luta pela existência, de procura ansiosa do lucro, sobretudo do lucro económico.


O «grande mistério», o sacramento do amor e da vida, que tem o seu início na criação e na redenção e cujo garante é Cristo-Esposo, perdeu na mentalidade moderna as suas raízes mais profundas. Está ameaçado em nós e à nossa volta. Possa o Ano da Família, celebrado na Igreja, tornar-se para os esposos uma ocasião propícia para o redescobrir e reafirmar com vigor, coragem e entusiasmo.”


Fonte: Carta às Famílias, Papa JPII

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